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Questão FC184453

O aluno computador Há perguntas para as quais a memória perfeita não consegue responder. Rubem Alves Era uma vez um jovem casal muito feliz. Ela estava grávida e eles esperavam com

Morfologia

AOCP · 2022

O aluno computador

Há perguntas para as quais a memória perfeita não consegue responder.

Rubem Alves

Era uma vez um jovem casal muito feliz. Ela estava grávida e eles esperavam com grande ansiedade o filho que nasceria.

Transcorridos os nove meses de gravidez, ela deu à luz um lindo computador! Que felicidade ter um computador como filho! Era o filho que desejavam! Por isso eles haviam rezado muito, durante toda a gravidez.. O batizado foi uma festança. Deram-lhe o nome de Memorioso, porque julgavam que uma memória perfeita é o essencial para uma boa educação. Educação é memorização. *Crianças com memória perfeita vão bem na escola e não têm problemas para passar no vestibular.

E foi isso mesmo que aconteceu. Memorioso memorizava tudo o que os professores ensinavam. E não reclamava. Seus companheiros reclamavam, diziam que aquelas coisas que lhes eram ensinadas não faziam sentido. Não aprendiam. Tiravam notas ruins. Ficavam de recuperação, o que não acontecia com Memorioso.

Ele memorizava com a mesma facilidade a maneira de extrair raiz quadrada, reações químicas, fórmulas de física, acidentes geográficos, datas de eventos históricos, regras de gramática, livros inteiros. A memória de Memorioso era perfeita.

Ele só tirava dez. E isso era motivo de grande orgulho para os seus pais. Os outros casais, pais e mães dos colegas de Memorioso, morriam de inveja. Quando seus filhos chegavam em casa trazendo boletins com notas vermelhas, eles gritavam: “Por que você não é como o Memorioso?”.

Memorioso foi o primeiro no vestibular. O cursinho que ele frequentara publicou sua fotografia em outdoors. Apareceu na televisão como exemplo a ser seguido por todos os jovens. Na universidade, foi a mesma coisa. Só tirava dez. Chegou, finalmente, o dia tão esperado: a formatura.

Memorioso foi o grande herói, elogiado pelos professores. Ganhou medalhas e mesmo uma bolsa para doutoramento no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Depois da cerimônia acadêmica, estavam todos felizes no jantar. Até que uma linda moça se aproximou de Memorioso: “Eu gostaria de lhe fazer uma pergunta”, disse a jovem. “Pode fazer”, respondeu Memorioso, confiante.

Ele sabia todas as respostas. Aí ela fez a pergunta: “De tudo o que você tem memorizado, o que mais te comove?”.

Memorioso ficou em silêncio. Aquela pergunta nunca lhe havia sido feita. Os circuitos de sua memória funcionavam com a velocidade da luz procurando a resposta. Mas ela não estava registrada em sua memória. Onde poderia estar? Seu rosto ficou vermelho. Começou a suar. Sua temperatura subiu. E, de repente, seus olhos ficaram muito abertos, parados, e se ouviu um chiado estranho dentro de sua cabeça, enquanto a fumaça saía por suas orelhas.

Memorioso primeiro travou. Deixou de responder a estímulos. Depois apagou, entrou em coma. Levado às pressas para o hospital de computadores, verificaram que o seu disco rígido estava irreparavelmente danificado. Há perguntas para as quais a memória perfeita não consegue responder. É preciso coração.

Disponível em: http://www.revistaeducacao.com.br/o-aluno-computador/. Acesso em: 01/03/2020.

No trecho “Era uma vez um jovem casal muito feliz.”, a palavra em destaque classifica-se como
  1. advérbio de intensidade, com a função de modificar o termo “feliz”, realçando seu sentido.
  2. substantivo abstrato, pois faz referência a um sentimento.
  3. pronome indefinido, pois não especifica com exatidão o vocábulo “feliz”.
  4. adjetivo quantitativo, com função de quantificar o termo “feliz”.
  5. artigo indefinido, pois não especifica com exatidão o vocábulo “feliz”.
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Gabarito

A

Comentário do professor

Comentário: Na frase “Era uma vez um jovem casal muito feliz.”, a palavra muito classifica-se corretamente como um advérbio de intensidade. Essa classificação deve-se ao fato de que o termo não se flexiona em gênero ou número, mantendo-se inalterado, independentemente do substantivo ou adjetivo que modifica. Nesse caso, muito atua como um intensificador do adjetivo feliz, elevando sua intensidade e enfatizando o grau de felicidade do casal. Assim, a expressão toda transmite uma ideia mais forte e expressiva sobre o estado emocional dos protagonistas da narrativa, reforçando a felicidade deles de maneira marcante.

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