Como a consciência pode ter evoluído para beneficiar a sociedade, não os indivíduosPeter W Halligan e David A Oakley
Por que a experiência da consciência evoluiu a partir da
nossa fisiologia cerebral subjacente? Apesar de ser uma área empolgante da
neurociência, as pesquisas atuais sobre a consciência são caracterizadas por
divergências e controvérsias. Existe uma disputa entre uma série de teorias
concorrentes. [...]
Perigos da intuição
As principais crenças intuitivas – por exemplo, que nossos
processos mentais são distintos dos nossos corpos físicos (dualismo
mente-corpo) e que os nossos processos mentais dão origem e controlam as nossas
decisões e ações (causalidade mental) – são reforçadas por uma vida inteira de
experiências subjetivas.
Estas crenças são encontradas em todas as culturas humanas.
São importantes porque servem como crenças fundamentais para a maioria das
democracias liberais e dos sistemas de justiça criminal. Elas são resistentes a
contraprovas. Isto porque são fortemente validadas por conceitos sociais e
culturais como o livre-arbítrio, os direitos humanos, a democracia, a justiça e
a responsabilidade moral. Todos esses conceitos pressupõem que a consciência
desempenha uma influência controladora central.
A intuição, no entanto, é um processo cognitivo automático
que evoluiu para fornecer explicações e previsões rápidas e confiáveis. Na
verdade, ela faz isso sem a necessidade de sabermos como ou por que sabemos
disso. Os resultados da intuição moldam, portanto, a forma como percebemos e explicamos
nosso mundo cotidiano, sem a necessidade de uma reflexão extensa ou de
explicações analíticas formais.
Embora úteis e cruciais para muitas atividades cotidianas,
as crenças intuitivas podem estar erradas. E também podem interferir na
alfabetização científica.
[...]
O problema para os modelos científicos de consciência
continua a ser acomodar estas explicações intuitivas dentro de uma estrutura
materialista consistente com as descobertas da neurociência. Embora não haja
uma explicação científica atual sobre como o tecido cerebral gera ou mantém a
experiência subjetiva, o consenso entre (a maioria dos) neurocientistas é que
ela é um produto de processos cerebrais.
Propósito social
Se for esse o caso, por que a consciência, definida como
percepção subjetiva, evoluiu?
A consciência provavelmente evoluiu como parte da evolução
do sistema nervoso. De acordo com várias teorias, a principal função adaptativa
(proporcionar ao organismo vantagens reprodutivas e de sobrevivência) da
consciência é tornar possível o movimento volitivo. E a volição é algo que, em
última análise, associamos à vontade, ao arbítrio e à individualidade.
Portanto, é fácil pensar que a consciência evoluiu para nos beneficiar como
indivíduos.
Mas argumentamos que a consciência pode ter evoluído para
facilitar funções adaptativas sociais fundamentais. Em vez de ajudar os
indivíduos a sobreviver, ela evoluiu para nos ajudar a transmitir as nossas
ideias e sentimentos vivenciados para o resto do mundo. E isto pode beneficiar
a sobrevivência e o bem-estar da espécie como um todo.
A ideia se encaixa no novo pensamento sobre genética.
Embora a ciência evolucionista se concentre tradicionalmente nos genes
individuais, há um reconhecimento cada vez maior de que a seleção natural entre
os humanos opera em vários níveis. Por exemplo, a cultura e a sociedade
influenciam características transmitidas entre gerações – valorizamos algumas
mais do que outras.
No centro da nossa explicação, está a ideia de que a
sociabilidade [...] é uma estratégia de sobrevivência fundamental que
influencia a forma como o cérebro e a cognição evoluem.
Adotando esta estrutura social evolutiva, nós propomos que
a percepção subjetiva carece de qualquer capacidade independente de influenciar
causalmente outros processos ou ações psicológicas. [...] Afirmar que a
percepção subjetiva não tem influência causal não significa negar a realidade
da experiência subjetiva ou afirmar que a experiência é uma ilusão. [...]
Na verdade, é justamente devido ao valor que damos a estas
experiências que os relatos intuitivos permanecem convincentes e difundidos nos
sistemas de organização social e jurídica e na psicologia.
Apesar de ser contraintuitivo atribuir arbítrio e
responsabilidade pessoal a um conjunto biológico de células nervosas, faz
sentido que construções sociais altamente valorizadas, como o livre-arbítrio, a
verdade, a honestidade e a justiça, possam ser atribuídas de forma
significativa aos indivíduos como pessoas responsáveis numa comunidade social.
Pense nisso. Embora estejamos profundamente arraigados à
nossa natureza biológica, a nossa natureza social é amplamente definida por
nossos papéis e interações na sociedade. Dessa forma, a arquitetura mental da
mente deve estar fortemente adaptada para a troca e recepção de informações,
ideias e sentimentos. [...]
Para se chegar a uma explicação mais científica para a
percepção subjetiva, é necessário aceitar que a biologia e a cultura trabalham
coletivamente para moldar a forma como os cérebros evoluem. [...]
Adaptado de:
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cz9xwge33zko. Acesso
em: 05 ago. 2024.
Analise a sentença a seguir:
“De acordo com várias teorias, a principal função
adaptativa (proporcionar ao organismo vantagens reprodutivas e de sobrevivência)
da consciência é tornar possível o movimento volitivo”.
O
termo destacado tem seu sentido relacionado ao significado dos seguintes
substantivos,
EXCETO de