IPÊS AMARELOS
Drauzio Varella
Os ipês amarelos estão em festa na cidade. Na secura do
inverno, eles se despem das folhas para poupar energia. Fingem-se de mortos,
até nos surpreender com o desabrochar de uma profusão de flores com pétalas que
se juntam como cálices delicados que, ao despencar dos galhos, rodopiam em
espiral para tecer um tapete amarelo que forra o asfalto e a calçada ao redor
do tronco.
Há de todos os tamanhos. Alguns são crianças que aos 2 ou 3
anos já medem 3 metros, idade suficiente para criar as primeiras flores, ainda
esparsas, distantes umas das outras. Outros, em compensação, são árvores
majestosas de tronco rijo, que atingem 20 ou 30 metros de altura, com galhos
emaranhados em copas de 5 ou 6 metros de diâmetro, nas quais expõem um buquê
amarelo visível a quilômetros de distância.
Senhores do que restou da Mata Atlântica, conscientes de
que viver em São Paulo exige resiliência, sobrevivem em qualquer canto. Um
deles, plantado no canteiro que separa as duas pistas da rua da Consolação,
junto ao cemitério do mesmo nome, é um escândalo florido. Ergue-se altaneiro
sobre um corredor de ônibus que trafegam nos dois sentidos, alheio à fuligem
projetada contra seu corpo, dia e noite. Ele retribui com um arranjo floral,
que encanta os olhos dos motoristas, a agressão perpetrada pelo trânsito.
A beleza é efêmera, no entanto: em uma semana as flores
serão varridas das calçadas e esmagadas pelos pneus que passam sem vê-las.
No processo de seleção natural, levaram vantagem evolutiva
os ipês mais floridos, capazes de atrair mais insetos para a polinização,
processo essencial para a formação das vagens compridas que protegem as
sementes aveludadas, capazes de viajar ao sabor do vento para germinar e
perpetuar a espécie.
A São Paulo da minha infância era cinzenta. Quem
pretendesse descansar a vista num verde, precisava ir aos limites da zona
urbana. As únicas árvores cultivadas eram as frutíferas, nos quintais.
A partir dos anos 1950, a cidade começou a ser arborizada,
de início timidamente; de forma sistemática nas últimas décadas.
Hoje, entre outras, temos tipuanas de troncos enormes, com
copas que chegam à calçada oposta e espalham milhares de flores amarelas miúdas
pelo chão; sibipirunas que dão flores empoleiradas no topo das copas, como se
fossem canários pousados; jacarandás mimosos de flores roxas; paus-ferro de
troncos brancos, muito altos; quaresmeiras; figueiras de folhagem exuberante; e
jerivás, palmeiras com cachos de coquinhos alaranjados que atraem pássaros e o
zumbido das abelhas.
São Paulo está longe de ser arborizada. A consciência de
que o verde e as flores a tornam mais humana ficou evidente até para os
paulistas que andam para lá e para cá ensimesmados, com os olhos no trânsito,
nas calçadas e nos transeuntes sem se dar conta da existência das árvores.
Para o ipê da rua da Consolação nossa apatia distraída não
faz a menor diferença. Se vier uma epidemia capaz de varrer a humanidade da
face da Terra, no inverno seguinte ele estará lá, frondoso, abarrotado de
flores amarelas que o vento irá derrubar.
Adaptado de:
https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/ipesamarelos-artigo/. Acesso
em: 11 jul. 2022.
Assinale a alternativa em que a palavra destacada no
excerto retirado do texto “Ipês amarelos” pode, sem prejuízo semântico, ser
substituída pela palavra ou expressão indicada na sequência.