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Questão FC185063

DICAS PARA ENFRENTAR O MAL-ESTAR Vida sem sofrimento não tem, mas há formas piores e melhores de encará-lo Vera Iaconelli – 5 set. 2022 Uma dica é admitir que a consciência, que é

Interpretação de Textos (Compreensão)

Instituto AOCP · 2023

DICAS PARA ENFRENTAR O MAL-ESTAR

Vida sem sofrimento não tem, mas há formas piores e melhores de encará-lo

Vera Iaconelli – 5 set. 2022

Uma dica é admitir que a consciência, que é uma ferramenta recém-adquirida pela humanidade, está fadada a fracassar em suas pretensões iluministas. Se a intenção for dar conta da experiência da vida apoiado na capacidade de atribuir-lhe sentido, melhor enfiar a viola no saco. Foi na tentativa de tudo entender, controlar e predizer, capturados por excessivas promessas da ciência, que nos perdemos. Entre encontrar "o" sentido da vida ou vivê-la, sugiro investir na poesia.

Outra dica é admitir que sem o outro não dá. Não apenas porque o isolamento mina nossas forças, mas porque nunca estamos inteiramente sós. O diálogo interno implica um outro que nos habita, nos julga, adula e recrimina. Paradoxalmente, pode-se dizer o oposto também: nunca estamos verdadeiramente acompanhados pela impossibilidade estrutural de compartilhar a experiência.

O encontro com o outro pode confirmar nossas péssimas expectativas, mas também pode nos surpreender. Como quando percebemos que todos os amores da nossa vida foram horríveis, exceto um. E justo esse, que escapa à série, pode acabar levando a bronca que cabia aos anteriores, justamente por contrariar experiências e expectativas. O encontro com o outro tem desses embaraços e deleites.
Quando o outro nos deixa — voluntária ou involuntariamente — nos expõe a um dos maiores entraves de qualquer relação, que é o medo de sofrer, claro. A técnica de se isolar para não sofrer seria boa se funcionasse, mas o isolamento é fonte de inesgotáveis sofrimentos compartilhados no divã. Vivemos o paradoxo das relações humanas incrementado pelas agruras da era midiática. As ferramentas que poderiam nos aproximar magicamente confirmam que não há tecnologia que resolva o infantil em nós que permanece ainda que a infância chegue ao fim. Mais do que aproximar, as mídias têm promovido sofrimento em escala global e instantânea.

Tem também a dica de cuidar. Não esse cuidado compulsório imputado às mulheres para fins de desoneração da responsabilidade dos homens. Mas o cuidado que emerge do reconhecimento de que o outro é feito da mesma massa que nós. Cuidar e ser cuidado é a dobradinha de ouro rumo à civilização, que parece cada vez mais distante.

Por fim, mas sem esgotar o tema, vá ao teatro. Por quê? Pois se trata da principal experiência coletiva na qual o outro nos invade tentando ultrapassar, pela poética, nossa obsessão pelo sentido. O teatro tem algo embaraçoso, que ultrapassa o cinema. O corpo a corpo com os atores em tempo real — com direito a falhas e ao constrangimento de se deixar emocionar e ser visto por quem te emociona — enaltece nossa fragilidade ao invés de escamoteá-la.

Adaptado de: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/veraiaconelli/ 2022/09/dicas-para-enfrentar-o-mal-estar.shtml. Acesso em: 09 jan. 2023.

A partir da leitura do texto, é correto afirmar que
  1. é impossível viver sem o outro, mas também é impossível viver totalmente com o outro.
  2. a busca pelo sentido da vida garante que as pessoas tenham uma existência livre de sofrimento.
  3. isolar-se é a melhor solução para evitar o sofrimento.
  4. é das mulheres o papel de cuidar dos homens, os quais, por sua vez, têm o papel de serem cuidados.
  5. o cinema é tão efetivo quanto o teatro no propósito de enaltecer "nossa fragilidade ao invés de escamoteá-la".
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Gabarito

A

Comentário do professor

Comentário: A alternativa A expressa uma verdade profunda sobre a condição humana, que é cuidadosamente explorada ao longo do texto. A afirmação de que “é impossível viver sem o outro, mas também é impossível viver totalmente com o outro” reflete a dualidade das relações interpessoais, conforme descrito pelo autor. Ele ressalta que, embora a vida em sociedade e o contato com o outro sejam fundamentais para a nossa existência e para a construção de significado, a relação com o outro é, por natureza, complexa e frequentemente repleta de desafios. A noção de que estamos sempre cercados por um 'outro' interno, que julga e interpela, impossibilita uma vivência completamente isolada ou plena. Portanto, este ponto revela um paradoxo central da vida social, onde a interação com os outros é simultaneamente necessária e impossível de ser totalizada, oferecendo uma rica reflexão sobre a busca humana por conexão e o medo do sofrimento. Essa percepção está alinhada com a mensagem do texto, que critica a ilusão do controle total sobre as experiências humanas e valoriza a capacidade de reconhecer a fragilidade e a incompletude dessa convivência.

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