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Questão FC185100

O texto a seguir refere-se a questão. PRATOS QUEBRADOS Vladimir Safatle “Um homem não se recupera desses solavancos, ele se torna uma pessoa diferente e eventualmente a nova pessoa

Interpretação de Textos (Compreensão)

Instituto AOCP · 2022

O texto a seguir refere-se a questão.

PRATOS QUEBRADOS

Vladimir Safatle

“Um homem não se recupera desses solavancos, ele se torna uma pessoa diferente e eventualmente a nova pessoa encontra novas preocupações.” Foi isso o que Scott Fitzgerald tinha a dizer depois de seu colapso nervoso. Ele se via como um prato quebrado, “o tipo que nos perguntamos se vale a pena conservar”. Prato que nunca mais será usado para visitas, mas que servirá para guardar biscoitos tarde da noite.
 
De fato, há certos momentos no interior da vida de um sujeito nos quais algo quebra, que não será mais colado. Olhando para trás, é estranho ter a sensação de que andávamos em direção a esse ponto de ruptura, como se fosse impossível evitá-lo caso quiséssemos continuar avançando. Como se houvesse passagens que só poderiam ser vivenciadas como quebra. Talvez isso ocorra porque somos feitos de forma tal que precisamos nos afastar de certas experiências, de certos modos de gozo, para podermos funcionar. Dessa forma, conseguiremos fabricar um prato com nossas vidas, um prato pequeno. A mulher que precisa se afastar da maternidade, o homem que precisa se afastar de uma paixão na qual se misturam coisas que deveriam estar separadas: todos esses são casos de pratos fabricados para não passarem de certo tamanho.
 
No entanto, somos às vezes pegos por situações nas quais acabamos por nos confrontar com aquilo que nos horroriza e fascina. Se quisermos continuar, sabemos que, em dado momento, o prato se quebrará, que ele nunca será recuperado, que talvez não funcionará “melhor”, até porque ele viverá com a consciência clara de que há vários pontos da superfície nos quais sua vulnerabilidade ficará visível. Como disse Fitzgerald, um homem não se recupera desses solavancos. Algo desse sofrimento fica inscrito para sempre.
 
Mas ele também poderá descobrir que, mesmo depois da quebra, ainda é capaz de se colar, de continuar funcionando, um pouco como esses pratos que pintamos de outra forma para disfarçar as rachaduras. Se bem elaborada, tal experiência poderá levar à diminuição do medo daquilo que, um dia, fomos obrigados a excluir. Talvez aprendamos a compor com doses do excluído, já que a necessidade da exclusão não era simplesmente arbitrária, embora ela não precise ser radicalmente hipostasiada. Algo do excluído poderá ser trabalhado e integrado; algo deverá ser irremediavelmente perdido.
 
Um dia, descobriremos que todos os pratos da sala de jantar estão quebrados em algum ponto e que é com pratos quebrados que sempre se ofereceram jantares. Os pratos que não passam por alguma quebra são pequenos e, por isso, só servem para a sobremesa. No entanto, ninguém vai ao banquete por causa da sobremesa.

Adaptado de: https://revistacult.uol.com.br/home/pratos-quebrados/. Acesso em: 18 abr. 2022.

A partir da leitura do excerto “[...] a necessidade da exclusão não era simplesmente arbitrária, embora ela não precise ser radicalmente hipostasiada.”, é correto afirmar que
  1. apesar de não ser uma ação sem importância, a exclusão não deve ser feita de forma simples.
  2. a exclusão, ao mesmo tempo em que apresenta fundamentos plausíveis, não necessita ser tomada como algo absoluto, que deve ocorrer de maneira completa.
  3. embora a exclusão de algo quebrado não seja simples, ela tem de acontecer sempre e de forma radical, definitiva.
  4. a exclusão é algo que depende única e exclusivamente da vontade do indivíduo, sendo uma ação facultativa e extremamente violenta.
  5. a necessidade da exclusão é obrigatória e não precisa ter sua importância diminuída. 
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Gabarito

B

Comentário do professor

Comentário: A alternativa B afirma que a exclusão, ao mesmo tempo em que apresenta fundamentos plausíveis, não necessita ser tomada como algo absoluto, que deve ocorrer de maneira completa. Essa afirmação se alinha perfeitamente com a ideia expressa no trecho em questão, onde se diz que “a necessidade da exclusão não era simplesmente arbitrária, embora ela não precise ser radicalmente hipostasiada.” Aqui, o autor sugere que a exclusão possui uma lógica por trás, mas isso não implica que deva ser encarada como uma regra inflexível. Portanto, a exclusão pode ser vista como um processo que pode ser revisitado e adaptado, evitando a radicalidade de um “tudo ou nada”. A expressão “não radicalmente hipostasiada” indica que a exclusão não precisa se transformar em uma verdade absoluta, mas sim ser um aspecto a ser avaliado conforme as circunstâncias da vida, refletindo o equilíbrio entre exclusão e integração. Dessa forma, a alternativa B se destaca por capturar a complexidade da experiência humana em relação à exclusão, reconhecendo seus fundamentos sem torná-la uma imposição absoluta que deve ser aplicada de forma irrestrita.

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