O isolamento pode ser
tão perigoso quanto fumar ou beber diariamente
Drauzio
Varella
Somos animais gregários, porque a formação de grupos foi
essencial à sobrevivência dos nossos ancestrais. Que chance teríamos de escapar
das feras se andássemos sozinhos pelas savanas da África, quando descemos das
árvores? Nossa necessidade de companhia é tanta que ficamos infelizes ao passar
um mísero sábado à noite sozinhos, em casa.
Os benefícios de uma vida em contato com os familiares, cheia
de amigos e de contatos sociais estão ligados à satisfação no trabalho, à
prosperidade financeira, à sensação de bem-estar e à realização de sonhos e
desejos pessoais.
Nos últimos anos, disciplinas como epidemiologia,
neurociência, psicologia e sociologia demonstraram que a existência de conexões
sociais sólidas têm valor preditivo em relação à longevidade e a boas condições
físicas, cognitivas e mentais. Por outro lado, ocorre o oposto na ausência
dessas conexões.
Inquéritos populacionais com participantes saudáveis têm
confirmado essas conclusões: quanto mais abrangentes as relações sociais, maior
a longevidade.
Ao contrário, solidão e isolamento aumentam o número de
mortes precoces. [...]
Numa revisão de 148 estudos, com pessoas saudáveis
acompanhadas por um período médio de sete anos e meio, a existência de conexões
sociais sólidas reduziu as taxas de mortalidade em cerca de 50%.
Os autores destacam o fato de que solidão e isolamento social
causam aumentos de mortalidade comparáveis aos de fatores comportamentais, como
sedentarismo, fumo e álcool. Comparável, também, aos de problemas clínicos:
hipertensão arterial, índice de massa corpórea elevado e colesterol alto.
Os malefícios são semelhantes aos da poluição ambiental.
Segundo eles, solidão e isolamento social são tão perigosos quanto fumar 15
cigarros por dia ou tomar seis doses de bebida alcoólica diariamente.
O isolamento e a solidão estão associados a aumento da
morbidade por infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC). Numa
síntese de 16 estudos, o risco de sofrer infarto aumentou 29%; e o de AVC, 32%.
A vida solitária aumenta também o número de infartos fatais.
Uma pesquisa realizada entre pacientes com doenças
cardiovasculares demonstrou que a solidão aumenta em 57% o número de
hospitalizações e em 26% o de consultas ambulatoriais, eventos que aumentam os
custos da assistência médica.
O fato de
a hipertensão arterial incidir com mais frequência na raça negra - justamente a
mais desfavorecida economicamente - e nos adultos mais velhos, explica por que
os níveis de pressão são controlados com mais dificuldade nesses grupos. Nos
hipertensos solitários, o risco de complicações ultrapassa aquele dos que
sofrem de diabetes.
Em mulheres com mais de 70 anos, a solidão aumenta a
probabilidade de desenvolver diabetes. [...] Os dados publicados pela National
Health Nutritional Examination Survey, conduzida em pessoas com diabetes,
revelaram que aqueles com menos de seis amigos próximos apresentam mortalidade
mais alta, independentemente da causa de morte. [...]
Sempre soubemos que famílias unidas, muitos amigos e relações
sociais gratificantes contribuem para uma vida plena. Não sabíamos é que o
isolamento e a solidão fazem tanto mal à saúde.
Disponível
em:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella/2023/07/oisolamento-pode-ser-tao-perigoso-quanto-fumar-ou-beberdiariamente.shtml.
Acesso em: 07 de ago. de 2023.
Tendo em vista aspectos linguísticos que constituem o texto,
analise as assertivas e assinale a alternativa que aponta a(s) correta(s).
I. Em
“[...] explica por que os níveis de pressão
são controlados com mais dificuldade nesses grupos.”, o conectivo destacado,
considerando a norma-padrão, deveria ser grafado da seguinte forma: “porque”.
II. Em
“Comparável, também, aos de problemas clínicos: hipertensão arterial, índice de
massa corpórea elevado e colesterol alto.”,
o adjetivo “elevado” poderia ser, corretamente, empregado na forma “elevada”,
para concordar com “massa corpórea”.
III. No
trecho “Inquéritos populacionais com
participantes saudáveis têm confirmado essas conclusões: [...]”, o verbo “ter”
foi empregado com acento para concordar com os termos destacados; se estes
estivessem no singular, não haveria tal acento em “têm”.