Questão FC195326
Leia o texto a seguir e responda a questão seguinte. Inculta, bela e complicada Guilherme Tauil Foi Olavo Bilac que, em parnasianíssimo soneto, tratou a Língua portuguesa por “últi
Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))
Instituto AVALIA · 2024
Leia o texto a seguir e responda a questão seguinte.
Inculta, bela e complicada
Guilherme Tauil
Foi Olavo Bilac que, em parnasianíssimo soneto, tratou a Língua portuguesa por “última flor do Lácio, inculta e bela”, referindo-se ao fato de que o nosso idioma foi o último a se desprender do latim vulgar, isto é, aquele praticado por gente como a gente, na região do Lácio, onde outrora retumbaram hinos do império romano. Por isso, inculta. Bela, é claro, não carece de explicação.
Embora ao falante de português seja muito justo o sentimento de gratidão por não ter sido alfabetizado em alemão ou em húngaro, é inegável que o adjetivo “complicada”, ou ao menos “complicadinha”, cairia bem no poema de Bilac dedicado à língua materna. Nossos tropeços são muitos, as dúvidas incontáveis, e vira e mexe tornam-se assunto dos cronistas — que, pelo menos uma vez por semana, estavam à mercê dos becos obscuros do idioma.
Em uma crônica com certa pinta de artigo, de nome “Ninguém sabe crasear, mas ler todo mundo lê”, Otto Lara Resende embarcou na discussão vigente sobre a crase, talvez uma das maiores dificuldades do português. O assunto estava em voga porque gramáticos e acadêmicos começavam a cozinhar o tal Acordo Ortográfico, que entraria em vigor para nós apenas quase duas décadas depois. Alguns entusiastas da simplificação, talvez num ímpeto anarcogramatical, propuseram sumir com a crase como fizeram com o trema. Otto era contra: “Se todo mundo soubesse crasear, ou se a crase fosse abolida, é possível que tivesse passado a vida desempregado”, disse. Foi às custas dela que fez sua carreira. O mesmo valia para seu pai, Antônio Lara Resende, que criou a numerosa prole de 20 filhos como professor de português e latim, “em boa parte graças à crase”.
Anos antes, o poeta Ferreira Gullar tinha publicado no Diário de Notícias, dirigido por Otto, uma série de aforismos sobre a contração, formulando “as novas tábuas de lei nessa matéria”. O primeiro mandamento era “A crase não foi feita para humilhar ninguém”. A frase fez sucesso e, como acontece na internet, espalhou-se sem a marca de paternidade. Em contextos variados, foi atribuída a Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, ao próprio Otto, a Rubem Braga, que tentou desfazer a confusão e publicou uma crônica dando os devidos créditos a Gullar.
(...) Certa vez, numa época em que vendedores de flores ofereciam suas pétalas em mesas de bares e restaurantes, Antônio Maria viu um senhor gordo, de ar próspero, pedir ao florista que escolhesse 12 de suas mais belas rosas. Queria amarelas, não tinha, aceitou as vermelhas e, depois de cheirar uma por uma, embrulhou-as com uma folha de papel transparente. Puxou do bolso um cartãozinho e se escondeu para escrever a dedicatória em silêncio, como consta em “O destino implacável das flores”.
(...) “Como é mesmo que se escreve ‘exímia’?”. “Com ‘x’ mesmo”, explica o escritor. O sujeito apaixonado, um pouco espantado com a resposta, sente necessidade de se justificar: “São para uma bailarina”.
Sorrindo, Antônio Maria foi embora para casa, pensando que, em algumas horas, a moça estaria recebendo mais 12 botões de rosas, com um cartão de ponta virada, onde leria sem muitas emoções: “À exímia bailarina, o seu mais ardoroso admirador”.
Adaptado de: https://cronicabrasileira.org.br/res-do-chao/19663/inculta-bela-e-complicada. Acesso em: 29 de ago. 2024.
Assinale a alternativa correta em relação às ideias apresentadas no texto “Inculta, bela e complicada”.
- Olavo Bilac já havia feito a afirmação de que a Língua Portuguesa é inculta e bela; porém, não chegou a afirmar ser ela também complicada por causa do seu estilo parnasiano.
- Línguas como o alemão e o húngaro apresentam uma estrutura muito mais simplificada do que a da Língua Portuguesa.
- Em tempos de internet, muitas ideias acabam perdendo a sua origem, e o processo de autoria de textos acaba ficando bastante comprometido.
- Para ser um bom escritor ou um bom professor, basta saber bastante sobre o emprego do acento indicativo da crase.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Em tempos de internet, muitas ideias acabam perdendo a sua origem, e o processo de autoria de textos acaba ficando bastante comprometido.
O texto discute como a internet influenciou a disseminação de informações, especialmente no que diz respeito à atribuição de autoria. Isso se torna evidente quando se observa que frases e pensamentos se espalham rapidamente, muitas vezes sem créditos adequados aos seus criadores. No exemplo mencionado, a frase sobre a crase é atribuída a diversos autores, o que demonstra como a originalidade e a paternidade das ideias podem ser ofuscadas.
A consequência disso é que a valorização das origens das ideias se torna um desafio. Os textos e pensamentos são apropriados, reinterpretados e replicados, sem que os reais autores sejam reconhecidos. Isso pode levar a uma desvalorização do contribuinte original e à propagação de informações distorcidas.
Assim, a alternativa correta destaca um fenômeno contemporâneo que afeta não apenas a literatura, mas todos os campos do conhecimento. A ausência de um devido crédito pode culminar na desinformação, onde a ideia original se perde e o leitor pode ser levado a acreditar em uma versão alterada ou descontextualizada.
Portanto, é fundamental que os leitores estejam atentos à importância da autoria e à relevância de reconhecer quem realmente criou uma ideia ou um texto, especialmente em um cenário onde a informação flui de forma tão rápida e livre.
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