Questão FC195425
Dentre essas ocorrências, quantas apresentam a forma verbal destacada na voz passiva?
Vozes (Voz Passiva e Voz Ativa)
Instituto AVALIA · 2024
Leia o texto a seguir e responda a questão seguinte.
Inculta, bela e complicada
Guilherme Tauil
Foi Olavo Bilac que, em parnasianíssimo soneto, tratou a Língua portuguesa por “última flor do Lácio, inculta e bela”, referindo-se ao fato de que o nosso idioma foi o último a se desprender do latim vulgar, isto é, aquele praticado por gente como a gente, na região do Lácio, onde outrora retumbaram hinos do império romano. Por isso, inculta. Bela, é claro, não carece de explicação.
Embora ao falante de português seja muito justo o sentimento de gratidão por não ter sido alfabetizado em alemão ou em húngaro, é inegável que o adjetivo “complicada”, ou ao menos “complicadinha”, cairia bem no poema de Bilac dedicado à língua materna. Nossos tropeços são muitos, as dúvidas incontáveis, e vira e mexe tornam-se assunto dos cronistas — que, pelo menos uma vez por semana, estavam à mercê dos becos obscuros do idioma.
Em uma crônica com certa pinta de artigo, de nome “Ninguém sabe crasear, mas ler todo mundo lê”, Otto Lara Resende embarcou na discussão vigente sobre a crase, talvez uma das maiores dificuldades do português. O assunto estava em voga porque gramáticos e acadêmicos começavam a cozinhar o tal Acordo Ortográfico, que entraria em vigor para nós apenas quase duas décadas depois. Alguns entusiastas da simplificação, talvez num ímpeto anarcogramatical, propuseram sumir com a crase como fizeram com o trema. Otto era contra: “Se todo mundo soubesse crasear, ou se a crase fosse abolida, é possível que tivesse passado a vida desempregado”, disse. Foi às custas dela que fez sua carreira. O mesmo valia para seu pai, Antônio Lara Resende, que criou a numerosa prole de 20 filhos como professor de português e latim, “em boa parte graças à crase”.
Anos antes, o poeta Ferreira Gullar tinha publicado no Diário de Notícias, dirigido por Otto, uma série de aforismos sobre a contração, formulando “as novas tábuas de lei nessa matéria”. O primeiro mandamento era “A crase não foi feita para humilhar ninguém”. A frase fez sucesso e, como acontece na internet, espalhou-se sem a marca de paternidade. Em contextos variados, foi atribuída a Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, ao próprio Otto, a Rubem Braga, que tentou desfazer a confusão e publicou uma crônica dando os devidos créditos a Gullar.
(...) Certa vez, numa época em que vendedores de flores ofereciam suas pétalas em mesas de bares e restaurantes, Antônio Maria viu um senhor gordo, de ar próspero, pedir ao florista que escolhesse 12 de suas mais belas rosas. Queria amarelas, não tinha, aceitou as vermelhas e, depois de cheirar uma por uma, embrulhou-as com uma folha de papel transparente. Puxou do bolso um cartãozinho e se escondeu para escrever a dedicatória em silêncio, como consta em “O destino implacável das flores”.
(...) “Como é mesmo que se escreve ‘exímia’?”. “Com ‘x’ mesmo”, explica o escritor. O sujeito apaixonado, um pouco espantado com a resposta, sente necessidade de se justificar: “São para uma bailarina”.
Sorrindo, Antônio Maria foi embora para casa, pensando que, em algumas horas, a moça estaria recebendo mais 12 botões de rosas, com um cartão de ponta virada, onde leria sem muitas emoções: “À exímia bailarina, o seu mais ardoroso admirador”.
Adaptado de: https://cronicabrasileira.org.br/res-do-chao/19663/inculta-bela-e-complicada. Acesso em: 29 de ago. 2024.
Analise os enunciados a seguir em relação às vozes dos verbos neles destacados.
– “Embora ao falante de português seja muito justo o sentimento de gratidão por não ter sido alfabetizado em alemão ou em húngaro, é inegável que o adjetivo “complicada” (...) cairia bem no poema (...).”
– “Nossos tropeços são muitos, as dúvidas incontáveis, e vira e mexe tornam-se assunto dos cronistas.”
– “Se todo mundo soubesse crasear, ou se a crase fosse abolida, é possível que tivesse passado a vida desempregado.”
– “Se todo mundo soubesse crasear, ou se a crase fosse abolida, é possível que tivesse passado a vida desempregado.”
Dentre essas ocorrências, quantas apresentam a forma verbal destacada na voz passiva?
- 2.
- 1.
- 4.
- 3.
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Gabarito
A
Comentário do professor
A alternativa correta é a letra A, que indica que duas das ocorrências apresentadas estão na forma verbal passiva.
Vamos analisar as duas frases que se encaixam nesta categoria:
– “Embora ao falante de português seja muito justo o sentimento de gratidão por não ter sido alfabetizado em alemão ou em húngaro, é inegável que o adjetivo ‘complicada’ (...) cairia bem no poema (...).”
A locução “ter sido alfabetizado” é um exemplo claro de voz passiva analítica. Aqui, o sujeito (o falante de português) sofre a ação de ser alfabetizado, que é expressa pelo verbo na forma passiva. Isso permite inferir um agente da passiva, como “por alguém” ou “por um professor”.
– “Se todo mundo soubesse crasear, ou se a crase fosse abolida, é possível que tivesse passado a vida desempregado.”
Da mesma forma, “fosse abolida” também se apresenta na voz passiva analítica. O sujeito é a crase, que está sendo abolida, e assim como na frase anterior, também há a possibilidade de se identificar um agente da passiva, como “pelos falantes” ou “pelo uso da língua”.
Portanto, as duas ocorrências que indicam voz passiva confirmam que a alternativa correta é a letra A, que menciona que existem duas formas verbais passivas nas frases analisadas.
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