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Questão FC217075

Vocês desculpem tocar nesse assunto, mas a verdade é que está morrendo muita gente. Outro dia peguei por acaso num antigo caderninho de endereços que estava no fundo de uma gaveta,

Semântica

VUNESP · 2024

Vocês desculpem tocar nesse assunto, mas a verdade é que está morrendo muita gente. Outro dia peguei por acaso num antigo caderninho de endereços que estava no fundo de uma gaveta, comecei a folhear e esfriei: quanto telefone de gente que já morreu!

 

Eu e um amigo estivemos imaginando uma Cidade dos Mortos que funcionasse mais ou menos como esta em que vivemos: uma cidade em que estivessem vivendo os mortos nossos conhecidos, os nossos mortos. Tinha muita gente, e gente ótima; é verdade também que alguns chatos; isso faz parte. Mas havia bons companheiros de praia, bons amigos de bar, excelentes papos. Poucas, raras mulheres de nossa estima; as mulheres, pelo visto, não costumam falecer.

 

O pior – dizia meu amigo, e eu batia a cabeça tristemente, a concordar – o pior é que esse “lado de lá” vai aumentando, e se a gente demorar muito por aqui acaba falando sozinho.

 

Embora eu não tenha nada contra o espiritismo, não acredito muito nessa história de sujeitos que baixam em sessões de subúrbio, cem, duzentos anos depois de morrer. Acho que depois de certa idade (idade de falecido) o morto não acredita mais em espiritismo. Considera-o uma impertinência dos vivos.

 

Tenho poucas mortas. Mas como são queridas! O engraçado é que à medida que o tempo passa elas vão ficando um pouco parecidas, vão-se fazendo irmãs, mesmo as que jamais se conheceram. Aparecem raramente e sempre caçoam um pouco de mim, mas com um jeito de carinho. Não faz mal que não me levem muito a sério; não mereço.

 

Mas a verdade é que nos piores momentos de minha vida sempre senti uma imponderável mão em minha cabeça; então fecho os olhos e me entrego a esse puro carinho, sem sequer me voltar para ver se é minha mãe, minha irmã ou uma doce, infeliz amiga ou apenas a leve brisa em meus cabelos.

 

(Rubem Braga. Desculpem tocar no assunto. https://cronicabrasileira.org.br, 14.06.1969. Adaptado)

 

No trecho “… nos piores momentos de minha vida sempre senti uma imponderável mão em minha cabeça…”, o vocábulo destacado tem como sinônimo, no contexto em que foi empregado:

  1. inestimável.
  2. inoportuna.
  3. impiedosa.
  4. irrisória.
  5. intimidadora.
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Gabarito

A

Comentário do professor

No trecho, o adjetivo imponderável qualifica uma sensação que não se pode pesar, medir ou explicar — algo impalpável e de difícil avaliação objetiva.

O termo inestimável é sinônimo adequado porque indica aquilo cujo valor ou intensidade não se consegue estimar; ou seja, é algo que foge à mensuração. Assim, a “mão” sentida nos piores momentos é percebida como um afeto precioso e incalculável, não quantificável em termos concretos.

Portanto, no contexto emotivo e subjetivo do texto, inestimável transmite com precisão a ideia de um gesto reconfortante e misterioso cujo valor não pode ser mensurado — correspondendo ao sentido pretendido por imponderável.

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