Questão FC217147
Leia o texto para responder à questão. Por vezes assalta-me a sensação de que estou me esquecendo da realidadea com a mesma rapidez com que me esqueço dos sonhos. Começa a ser difí
Sintaxe
VUNESP · 2024
Leia o texto para responder à questão.
Por vezes assalta-me a sensação de que estou me esquecendo da realidadea com a mesma rapidez com que me esqueço dos sonhos. Começa a ser difícil saber se estou me esquecendo de um sonho ou da realidade.
Acontece-me, por exemplo, assistir a um filme e, no meio, descobrir que já o vi antes. Com os livros de ficção, isso nunca me aconteceu, o que me leva a supor que a leitura implique uma mobilização mais profundab de certas áreas do cérebro. Faz sentido, na medida em que ao lermos um romance somos convidados a recriá-lo, imaginando o rosto dos personagens, e uma larga parte dos cenários e das situações. Cada leitor rescreve o romance que está lendo.
O problema é que aquilo que me acontece com os filmes também ocorre com as pessoas. Encontro com alguém num casamento, começamos a conversar, e só quando a festa se aproxima do fim é que o reconheço.c
Pode ser que o problema não seja meu, e sim do cinema que se faz hoje – e da atual humanidade. Talvez eu julgue estar revendo um filme, e seja um outro; no entanto, os enredos, o estilo, os cenários, é tudo tão parecido que muito antes do final eu já conheço o desfecho.d
Para funcionar, da forma mais eficiente possível, um exército começa por uniformizar os seus soldados; ou seja, por lhes retirar a individualidade.e As nossas sociedades tecnológicas estão fazendo o mesmo a um nível mais íntimo e profundo. Acho isso assustador.
Fico feliz quando encontro um filme (ou uma pessoa) capaz de me surpreender, como “Dias perfeitos”, de Wim Wenders, que acompanha o cotidiano de um homem de meia-idade, Hirayama, responsável pela limpeza de banheiros públicos em Tóquio. Hirayama cumpre a sua tarefa com extraordinário zelo e dedicação.
Na sua aparente simplicidade, Hirayama distingue-se de quem o rodeia. Não é uniformizável. O faxineiro erudito de Wim Wenders é um colecionador de pequenos espantos, de fulgores e de momentos únicos. É um colecionador de vida. Pessoas e personagens assim são inconfundíveis e inesquecíveis. Precisamos deles para travar a uniformização do mundo e ressuscitar a alegria e o espanto.
(José Eduardo Agualusa. A vida ambiciona o espanto. https://oglobo.globo. com, 03.02.2024. Adaptado)
Assinale a alternativa em que a expressão destacada substitui, sem prejuízo do sentido e da correção gramatical, o que está entre colchetes.
- Por vezes assalta-me a sensação de que estou me esquecendo da realidade… [consome-me pela] –
- … o que me leva a supor que a leitura implique uma mobilização mais profunda… [acarrete numa] –
- Encontro com alguém num casamento, começamos a conversar, e só quando a festa se aproxima do fim é que o reconheço. [Deparo a].
- … os enredos, o estilo, os cenários, é tudo tão parecido que muito antes do final eu já conheço o desfecho. [sei do] –
- … um exército começa por uniformizar os seus soldados; ou seja, por lhes retirar a individualidade. [apartar da] –
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Gabarito
D
Comentário do professor
A substituição proposta — “conheço o desfecho” por “sei do [desfecho]” — preserva o sentido do enunciado: ambas expressam posse de conhecimento sobre o resultado da narrativa, sobretudo antes de seu término.
Do ponto de vista gramatical, conhecer é verbo transitivo direto (conheço algo), exigindo o objeto direto “o desfecho”, forma que aparece na alternativa. Já saber admite tanto a transitividade direta quanto a regência com de (“sei do desfecho”); portanto, não há prejuízo de regência ao trocar uma forma pela outra.
Estilisticamente, “conheço o desfecho” encaixa-se bem no contexto temporal (“muito antes do final eu já…”), enfatizando familiaridade com o enredo. Assim, a alternativa D é correta porque mantém sentido, correção sintática e naturalidade discursiva.
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