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Questão FC217154

Leia o texto para responder à questão. O desejo mergulha na luz Chamava-se Desiderio, mas desconfio que não gostava muito desse nome. Que nem é feio – em italiano, pelo menos, quer

Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)

VUNESP · 2025

Leia o texto para responder à questão.

 

O desejo mergulha na luz

 

Chamava-se Desiderio, mas desconfio que não gostava muito desse nome. Que nem é feio – em italiano, pelo menos, quer dizer desejo. Eu só soube por acaso que era também Desiderio, um dia que pedi a meu irmão para levar uns livros a ele no hospital. A moça da portaria procurou “Fernando”, não havia nenhum. Procurou então “Severino”, e lá estava: Desiderio. Não cheguei a perguntar a ele se não gostava mesmo do nome tão sonoro. Não soube também se chegou a ler O apanhador no campo de centeio, que eu mandara naquela tarde. Eu não soube, não perguntei nem disse uma porção de coisas. Não comemos os camarões do Tirol com o doutor Eduardo. Não houve tempo. E a gente não sabia disso.

 

Só o encontrei há poucos meses, no fim da primavera do ano passado, por intermédio de Marcos Breda, que só conhece pessoas do bem, e com quem ele fazia Bailei na curva. Nos vimos poucas vezes depois.

 

Foi nessa mesma tarde que percebi o quanto ele estava frágil, embora aparentemente normal e bonito como sempre. Mas parecia vacilar às vezes – só parecia, qualquer coisa nos olhos, no passo –, como se fosse cair. Não caía. Por trás da fragilidade física escondia-se uma extraordinária força.

 

Nos últimos tempos, falamos muito pouco diretamente. Eu mandava recados, pedia notícias a um, a outro. As notícias eram cada vez piores, e aprendi por experiência própria que muitas vezes a gente prefere ser deixado a sós com o enigma do próprio corpo, quando ele começa nos devorar feroz, incompreensível.

 

Soube de sua partida numa manhã gelada de inverno. Eu acabara de voltar de um dos morros aqui perto de casa. Então, quando me contaram, suspirei assim “que alívio, meu Deus, que alívio”. Depois conversei com ele pedindo que fizesse boa viagem e não se preocupasse, que nós vamos tentar continuar cuidando de nós mesmos, que não olhasse para trás e mergulhasse na luz assim como quem se joga do alto do trampolim numa imensa piscina azul dentro de uma manhã alucinada de verão.

 

(Caio Fernando Abreu. Pequenas epifanias, 2014. Adaptado)

 

A pontuação atende à norma-padrão em:

  1. Foi Marcos Breda que me apresentou, Desiderio, no fim da primavera do ano passado; depois, eu e ele nos vimos poucas vezes.
  2. A moça da portaria procurou “Fernando”, não havia nenhum, “Desiderio”; ela então, procurou “Severino”, e lá estava: Desiderio.
  3. Desiderio estava aparentemente normal e bonito como sempre; mas ele às vezes, parecia vacilar, como se fosse cair, e não caía.
  4. Desconfio que Desiderio não gostava muito do próprio nome; eu, porém, não cheguei a perguntar a ele se não gostava mesmo.
  5. Eu e Desiderio, falamos muito pouco diretamente: eu mandava recados, e pedia notícias a um, e a outro; elas, porém, eram cada vez piores.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A frase usa corretamente o ponto e vírgula para ligar duas orações independentes e intimamente relacionadas: a primeira expressa a suspeita do falante; a segunda, sua ação (ou falta dela). Esse sinal cria pausa maior que a vírgula, mantendo a unidade de sentido entre as ideias.

As vírgulas que envolvem porém isolam essa conjunção coordenativa adversativa quando ela aparece em posição intercalada. Assim, porém funciona como inciso, cortando a sequência do sujeito "eu" e do predicado "não cheguei a perguntar".

Note-se ainda a correção da construção verbal "não cheguei a perguntar a ele": perguntar rege objeto indireto introdutório por preposição, portanto "a ele" está adequado.

Em conjunto, a pontuação atende à norma-padrão ao marcar pausas e relações de oposição entre as orações de modo claro e elegante.

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