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Questão FC217180

Bons dias! Quem nunca invejou não sabe o que é padecer. Eu sou uma lástima. Não posso ver uma roupinha melhor em outra pessoa, que não sinta o dente da inveja morder-me as entranha

Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)

VUNESP · 2024

Bons dias!

 

Quem nunca invejou não sabe o que é padecer. Eu sou uma lástima. Não posso ver uma roupinha melhor em outra pessoa, que não sinta o dente da inveja morder-me as entranhas. É uma comoção tão ruim, tão triste, tão profunda, que dá vontade de matar. Não há remédio para esta doença. Eu procuro distrair-me nas ocasiões; como não posso falar, entro a contar os pingos de chuva, se chove, ou os basbaques1 que andam pela rua, se faz sol; mas não passo de algumas dezenas. O pensamento não me deixa ir adiante. A roupinha melhor faz-me foscas2, a cara do dono faz-me caretas...

 

Foi o que me aconteceu depois da última vez que estive aqui. Há dias, pegando uma folha da manhã, li uma lista de candidaturas para deputados por Minas, com seus comentos e prognósticos. Chego a um dos distritos, não me lembra qual nem o nome da pessoa, e que hei de ler? Que o candidato era apresentado pelos três partidos, liberal, conservador e republicano.

 

A primeira coisa que senti foi uma vertigem. Depois, vi amarelo. Depois não vi mais nada. As entranhas doíam-me, como se um facão as rasgasse, a boca tinha um sabor de fel, e nunca mais pude encarar as linhas da notícia. Rasguei afinal a folha, e perdi os dois vinténs; mas eu estava pronto a perder dous milhões, contanto que aquilo fosse comigo.

 

Upa! Que caso único. Todos os partidos armados um contra os outros no resto do império, naquele ponto uniam-se e depositavam sobre a cabeça de um homem os seus princípios. Não faltará quem ache tremenda a responsabilidade do eleito – porque a eleição, em tais circunstâncias, é certa; cá para mim é exatamente o contrário. Deem-me dessas responsabilidades, e verão se me saio delas sem demora, logo na discussão do voto de graças.

 

Diria eu que ser conservador era ser essencialmente liberal, e que no uso da liberdade, no seu desenvolvimento, nas suas mais amplas reformas, estava a maior conservação. Vede uma floresta (exclamaria, levantando os braços). Que potente liberdade! e que ordem segura! A natureza, liberal e pródiga na produção, é conservadora por excelência na harmonia em que aquela vertigem de troncos, folhas e cipós, em que aquela passarada estrídula3, se unem para formar a floresta, que exemplo às sociedades! que lição aos partidos!

 

(Machado de Assis, Crônica – Bons Dias! Adaptado)

 

1 Basbaques – tolos, simplórios

 

2 Foscas – o mesmo que fosquinhas: gestos, provocações

 

3 Estrídulas – ruidosas

 

De acordo com a norma-padrão, o trecho entre vírgulas que, por sua característica, poderia ser posto entre parênteses é:

  1. É uma comoção tão ruim, tão triste, tão profunda...
  2. Chego a um dos distritos, não me lembra qual nem o nome da pessoa, e que hei de ler?
  3. ... como não posso falar, entro a contar os pingos de chuva, se chove ...
  4. ... no uso da liberdade, no seu desenvolvimento, nas suas mais amplas reformas ...
  5. ... em que aquela vertigem de troncos, folhas e cipós, em que aquela passarada estrídula...
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Gabarito

B

Comentário do professor

O trecho não me lembra qual nem o nome da pessoa, isolado por vírgulas, funciona como um inciso — isto é, uma informação acessória que interrompe a frase sem integrar-se sintaticamente ao núcleo da oração.

Como a oração pode perfeitamente ser lida sem esse segmento, ele é opcional e, por isso, admite ser grafado entre parênteses, que sinalizam menor ênfase e maior separação do enunciado principal.

Substituir as vírgulas por parênteses preserva o sentido e deixa claro que se trata de um comentário explicativo e não de elemento essencial à estrutura sintática da frase.

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