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Questão FC217225

Leia o texto a seguir para responder à questão. Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensa

Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)

VUNESP · 2024

Leia o texto a seguir para responder à questão.

 

Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a que me cativou logo foi uma... uma... não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo. Mas vá lá; ou se há de dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela, a “linda Marcela”, como lhe chamavam os rapazes do tempo. E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das Astúrias; disse-mo ela mesma, num dia de sinceridade, porque a opinião aceita é que nascera de um letrado de Madri, vítima da invasão francesa, ferido, encarcerado, espingardeado, quando ela tinha apenas doze anos.

 

Cosas de España. Quem quer que fosse, porém, o pai, letrado ou hortelão, a verdade é que Marcela não possuía a inocência rústica, e mal chegava a entender a moral do código. Era boa moça, lépida, sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e tísico, — uma pérola.

 

Vi-a pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminárias, logo que constou a declaração da independência, uma festa de primavera, um amanhecer da alma pública. Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sair de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um desgarre, alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras. — Segue-me, disse ela ao pajem. E eu segui-a, tão pajem como o outro, como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe “linda Marcela”, lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto.

 

(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas)

 

Na passagem do 1º parágrafo – De todas porém a que me cativou logo foi uma... uma... não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo. –, o narrador emprega as reticências para indicar

  1. a hesitação sobre a expressão a ser empregada.
  2. a cumplicidade com o leitor, sabedor do termo.
  3. a despreocupação em usar o baixo calão.
  4. a falta de memória para lembrar a palavra.
  5. a introdução de uma fala alheia no texto.
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Gabarito

A

Comentário do professor

As reticências aqui marcam uma hesitação do narrador sobre qual expressão empregar. Ao interromper “uma... uma... não sei se diga”, o autor reproduz o ato de pensar duas vezes antes de nomear ou descrever, sinalizando dúvida ou recuo momentâneo.

Esse recurso funciona como auto‑censura — o narrador afirma a intenção de castidade do livro e, por isso, suspende a palavra que poderia ser considerada imprópria ou demasiado direta. As reticências tornam audível essa contenção.

Estilisticamente, a pausa expressa também a voz pessoal do narrador: há um jogo entre intimidade e reserva, que reforça o caráter irônico e performático do enunciador. Por isso, a alternativa que aponta a hesitação é a correta.

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