Questão FC217408
Bons dias! Quem nunca invejou não sabe o que é padecer. Eu sou uma lástima. Não posso ver uma roupinha melhor em outra pessoa, que não sinta o dente da inveja morder-me as entranha
Concordância (Verbal e Nominal)
VUNESP · 2024
Bons dias!
Quem nunca invejou não sabe o que é padecer. Eu sou uma lástima. Não posso ver uma roupinha melhor em outra pessoa, que não sinta o dente da inveja morder-me as entranhas. É uma comoção tão ruim, tão triste, tão profunda, que dá vontade de matar. Não há remédio para esta doença. Eu procuro distrair-me nas ocasiões; como não posso falar, entro a contar os pingos de chuva, se chove, ou os basbaques1 que andam pela rua, se faz sol; mas não passo de algumas dezenas. O pensamento não me deixa ir adiante. A roupinha melhor faz-me foscas2, a cara do dono faz-me caretas...
Foi o que me aconteceu depois da última vez que estive aqui. Há dias, pegando uma folha da manhã, li uma lista de candidaturas para deputados por Minas, com seus comentos e prognósticos. Chego a um dos distritos, não me lembra qual nem o nome da pessoa, e que hei de ler? Que o candidato era apresentado pelos três partidos, liberal, conservador e republicano.
A primeira coisa que senti foi uma vertigem. Depois, vi amarelo. Depois não vi mais nada. As entranhas doíam-me, como se um facão as rasgasse, a boca tinha um sabor de fel, e nunca mais pude encarar as linhas da notícia. Rasguei afinal a folha, e perdi os dois vinténs; mas eu estava pronto a perder dous milhões, contanto que aquilo fosse comigo.
Upa! Que caso único. Todos os partidos armados um contra os outros no resto do império, naquele ponto uniam-se e depositavam sobre a cabeça de um homem os seus princípios. Não faltará quem ache tremenda a responsabilidade do eleito – porque a eleição, em tais circunstâncias, é certa; cá para mim é exatamente o contrário. Deem-me dessas responsabilidades, e verão se me saio delas sem demora, logo na discussão do voto de graças.
Diria eu que ser conservador era ser essencialmente liberal, e que no uso da liberdade, no seu desenvolvimento, nas suas mais amplas reformas, estava a maior conservação. Vede uma floresta (exclamaria, levantando os braços). Que potente liberdade! e que ordem segura! A natureza, liberal e pródiga na produção, é conservadora por excelência na harmonia em que aquela vertigem de troncos, folhas e cipós, em que aquela passarada estrídula3, se unem para formar a floresta, que exemplo às sociedades! que lição aos partidos!
(Machado de Assis, Crônica – Bons Dias! Adaptado)
1 Basbaques – tolos, simplórios
2 Foscas – o mesmo que fosquinhas: gestos, provocações
3 Estrídulas – ruidosas
Assinale a alternativa que dá sequência à frase, de acordo com a norma-padrão de concordância nominal e verbal.
O narrador...
- sentia inveja e comoção muito ruins e profundas, que são emoções para a qual não haviam remédios.
- procura distrair-se, mas bastante pensamentos acerca das coisas que ele inveja não o deixa ir adiante.
- afirma que, fazem alguns dias, leu uma lista de candidaturas com prognósticos o mais espantosos possíveis.
- percebeu que todos os partidos que sempre se armava um contra os outros, no resto do império, ficava unido.
- confessa que bastam alguns atrativos, como a roupa melhor de outrem, para que se manifestem sentimentos ruins.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
A alternativa E é correta porque observa a concordância verbal e a regência do para que.
O verbo bastar concorda com o sujeito "alguns atrativos" (plural), por isso aparece no plural: bastam.
A expressão "como a roupa melhor de outrem" funciona como exemplo dentro do sujeito composto e não altera a concordância com o núcleo plural "atrativos".
Em seguida, a locução para que exige o modo subjuntivo; o verbo manifestar‑se deve concordar com "sentimentos" (plural), daí manifestem.
Portanto, a forma "confessa que bastam alguns atrativos, como a roupa melhor de outrem, para que se manifestem sentimentos ruins" respeita as regras de concordância nominal e verbal.
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