Questão FC217476
Leia o texto a seguir para responder à questão. Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensa
Concordância (Verbal e Nominal)
VUNESP · 2024
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a que me cativou logo foi uma... uma... não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo. Mas vá lá; ou se há de dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela, a “linda Marcela”, como lhe chamavam os rapazes do tempo. E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das Astúrias; disse-mo ela mesma, num dia de sinceridade, porque a opinião aceita é que nascera de um letrado de Madri, vítima da invasão francesa, ferido, encarcerado, espingardeado, quando ela tinha apenas doze anos.
Cosas de España. Quem quer que fosse, porém, o pai, letrado ou hortelão, a verdade é que Marcela não possuía a inocência rústica, e mal chegava a entender a moral do código. Era boa moça, lépida, sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e tísico, — uma pérola.
Vi-a pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminárias, logo que constou a declaração da independência, uma festa de primavera, um amanhecer da alma pública. Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sair de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um desgarre, alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras. — Segue-me, disse ela ao pajem. E eu segui-a, tão pajem como o outro, como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe “linda Marcela”, lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto.
(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas)
A reescrita de informações do texto atende à norma- -padrão de concordância verbal em:
- Cabia à Marcela todas as nuances de beleza, razão pela qual era comum que os rapazes da época lhe chamassem usualmente “linda Marcela”.
- A noite das luminárias foram cúmplices da primeira vez que eu vi Marcela, no Rocio Grande. Eu a vi sair de uma cadeirinha, airosa e vistosa.
- “Segue-me”, disse Marcela ao pajem. Então, eu e o pajem a seguiu; e eu estava tão pajem como o outro, como se a ordem me fosse dada.
- Marcela era tolhida pela austeridade do tempo, e assim, impediam-se os estouvamentos e as berlindas dela de serem arrastados pela rua.
- Eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que deviam haver várias damas que levantaram para mim os olhos cobiçosos.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Na oração proposta, a concordância está correta porque o predicado verbal concorda com seus sujeitos respectivos. Marcela era tolhida — aqui o verbo era concorda com o sujeito simples e posposto Marcela (3.ª pessoa do singular).
Na sequência, a construção pronominal impedir-se põe como sujeito aquilo que sofre a ação: os estouvamentos e as berlindas dela. Como esse sujeito é plural e posposto ao verbo, o verbo aparece no plural: impediam-se.
Por fim, o infinitivo flexionado serem é admissível (infinitivo pessoal) porque retoma o sujeito plural; assim, serem arrastados concorda em número com os estouvamentos e as berlindas, garantindo a correção da frase.
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