Questão FC217534
— Olá, amigo, está indo para a aldeia?
Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
VUNESP · 2024
Para responder à questão, leia o conto indígena “Mboi-tatá ou Fogo-fátuo”, história contada por Yaguareçá Sukuyê e escrita por Yaguarê Yamã.
Fogo-fátuo é o nome pelo qual se conhece o Mboi-tatá, que em nhengatu significa “cobra de fogo”. Ele é um ser visajento1, brilhante, que para os Maraguá, e especialmente para os habitantes do rio Urariá, se apresenta como uma luz que pinga, como se fosse uma vela.
Certa vez, um rapaz de uma aldeia saiu para ir a uma festa na aldeia vizinha. Muito interessado nas moças, ele demorou muito e acabou voltando depois da meia-noite. Como não havia levado lamparina para alumiar o caminho, foi andando aos tropeções pelo cacoal2 de uns dois quilômetros que separava as duas aldeias. Sempre é perigoso andar por dentro do cacoal, pois a luz do luar não atravessa as árvores, e muitas vezes há cobras venenosas, como a surukuku, a mais temida da região.
O rapaz vinha o tempo todo olhando para trás, torcendo para que viesse alguém com uma lamparina. Mas não vinha ninguém, e ele continuava andando, sempre com muito medo de ser picado por alguma cobra. De repente ele avistou uma luz muito ao longe e resolveu esperar, achando que fosse alguém da aldeia que vinha na sua direção. Quando a luz se aproximou, ele chamou:
— Olá, amigo, quem é você?
Só que ninguém respondeu. O rapaz recomeçou a andar, bem devagarinho, e meio cismado tornou a falar:
— Olá, amigo, está indo para a aldeia?
Mais uma vez, ninguém respondeu.
Muito desconfiado, o rapaz acelerou o passo. A luz se tornou mais forte e, pingando como uma vela, foi se aproximando mais depressa. O rapaz não quis ver mais nada. Saiu correndo, tropeçando no meio da escuridão, caindo e se levantando, com a luz misteriosa sempre atrás dele, tentando alcançá-lo.
Cansado de tanto correr, quase entregando os pontos, ele acabou deixando a escuridão do cacoal e avistou a aldeia logo à sua frente. Não deu nem para chegar em casa. Passou como um relâmpago pelo meio dos cachorros que latiam e se jogou contra a porta do primeiro tapiry3 que encontrou. Com o tranco, arrebentou a esteira de japá4 e caiu para dentro. O dono da casa acordou assustado, ouviu a história do rapaz e os dois saíram juntos para o terreiro. A luz estranha tinha sido atacada pelos cachorros, e eles ainda a viram se afastando e voltando a entrar no cacoal.
No dia seguinte a aldeia toda ficou sabendo do caso, e nunca mais ninguém teve coragem de passar por aquele cacoal à noite.
(Yaguarê Yamã. Murũgawa:
mitos, contos e fábulas do povo Maraguá, 2007.)
1 ser visajento (ou visagento): ser sobrenatural.
2 cacoal: aglomerado de cacaueiros.
3 tapiry: choupana que serve de abrigo.
4 japá: esteira de palha para cobrir ou servir de porta.
“O rapaz recomeçou a andar, bem devagarinho, e meio cismado tornou a falar:
— Olá, amigo, está indo para a aldeia?” (5º/6º parágrafos)
Ao se adaptar esse trecho para o discurso indireto, a locução verbal da fala do rapaz assume a seguinte forma:
- estaria indo.
- ia.
- estava indo.
- iria.
- vai.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A transformação do enunciado direto «— Olá, amigo, está indo para a aldeia?» para o discurso indireto exige a mudança do tempo verbal, porque a fala original está no presente do indicativo. Em narração passada, o presente passa para o pretérito imperfeito.
Além disso, a pergunta perde o caráter interrogativo direto e é introduzida por um verbo de fala, ficando em forma declarativa com o conectivo apropriado (se, no caso de perguntas fechadas).
Assim, a locução verbal composta por verbo auxiliar + gerúndio mantém o gerúndio, enquanto o auxiliar flexiona para o pretérito imperfeito: "está indo" → "estava indo".
Exemplo final: O rapaz perguntou se o amigo estava indo para a aldeia. Essa é a forma correta porque respeita a sequência de tempos e a conversão da interrogação direta para indireta.
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