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Questão FC217546

Leia o texto a seguir para responder à questão. Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensa

Linguagem

VUNESP · 2024

Leia o texto a seguir para responder à questão.

 

Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a que me cativou logo foi uma... uma... não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo. Mas vá lá; ou se há de dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela, a “linda Marcela”, como lhe chamavam os rapazes do tempo. E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das Astúrias; disse-mo ela mesma, num dia de sinceridade, porque a opinião aceita é que nascera de um letrado de Madri, vítima da invasão francesa, ferido, encarcerado, espingardeado, quando ela tinha apenas doze anos.

 

Cosas de España. Quem quer que fosse, porém, o pai, letrado ou hortelão, a verdade é que Marcela não possuía a inocência rústica, e mal chegava a entender a moral do código. Era boa moça, lépida, sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e tísico, — uma pérola.

 

Vi-a pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminárias, logo que constou a declaração da independência, uma festa de primavera, um amanhecer da alma pública. Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sair de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um desgarre, alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras. — Segue-me, disse ela ao pajem. E eu segui-a, tão pajem como o outro, como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe “linda Marcela”, lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto.

 

(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas)

 

A metáfora é o emprego de um significante com um significado secundário ou a aproximação de dois ou mais significantes, estando, nos dois casos, os significados associados por semelhança, contiguidade, inclusão. 

 

(Nilce Sant’Anna Martins, 2008) 

 

A definição da autora é corretamente exemplificada com a seguinte passagem do texto:

  1. A que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela... (1º parágrafo)
  2. Naquele ano, morria de amores por um certo Xavier... (2º parágrafo)
  3. Mas vá lá; ou se há de dizer tudo ou nada. (1º parágrafo)
  4. Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado... (1º parágrafo)
  5. ... namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. (3º parágrafo)
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

A expressão "...namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras." constitui uma metáfora porque transfere o sentido literal de auroras (o amanhecer) para um significado secundário: o início da vida, a juventude, o frescor e o ímpeto.

Nessa figura, não há elemento comparativo explícito ("como", "tal qual"); o poeta justapõe imagens por semelhança — o amanhecer simboliza começo, luz e vigor — e o aplicam ao eu‑narrador para sugerir sua energia e inocência iniciais.

Assim, a frase produz uma imagem expressiva e condensada: auroras funciona como termo emprestado, enriquecendo o sentido afetivo e temporal (primeira fase da vida) por meio da comparação implícita própria da metáfora.

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