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Questão FC217618

Leia o texto para responder à questão. Cinco horas da tarde Recebi agora um bilhete de mana Rita, que aqui vai colado: 9 de janeiro “Mano, Só agora me lembrou que faz hoje um ano q

Interpretação de Textos (Compreensão)

VUNESP · 2025

Leia o texto para responder à questão.

 

Cinco horas da tarde

 

Recebi agora um bilhete de mana Rita, que aqui vai colado:

 

9 de janeiro

 

“Mano,

 

Só agora me lembrou que faz hoje um ano que você voltou da Europa aposentado. Já é tarde para ir ao cemitério de São João Batista, em visita ao jazigo da família, dar graças pelo seu regresso; irei amanhã de manhã, e peço a você que me espere para ir comigo.

 

Saudades da

 

Velha mana,

 

Rita”.

 

Não vejo necessidade disso, mas respondi que sim.

 

10 de janeiro

 

Fomos ao cemitério. Rita, apesar da alegria do motivo, não pôde reter algumas velhas lágrimas de saudade pelo marido que lá está no jazigo, com meu pai e minha mãe. Ela ainda agora o ama, como no dia em que o perdeu, lá se vão tantos anos. No caixão do defunto mandou guardar um molho dos seus cabelos, então pretos, enquanto os mais deles ficaram a embranquecer cá fora.

 

Não é feio o nosso jazigo; podia ser um pouco mais simples, — a inscrição e uma cruz — mas o que está é bem feito. Achei-o novo demais, isso sim. Rita fá-lo lavar todos os meses, e isto impede que envelheça. Ora, eu creio que um velho túmulo dá melhor impressão do ofício, se tem as negruras do tempo, que tudo consome. O contrário parece sempre da véspera.

 

Rita orou diante dele alguns minutos, enquanto eu circulava os olhos pelas sepulturas próximas. Em quase todas havia a mesma antiga súplica da nossa: “Orai por ele! Orai por ela!” Rita me disse depois, em caminho, que é seu costume atender ao pedido das outras, rezando uma prece por todos os que ali estão. Talvez seja a única. A mana é boa criatura, não menos que alegre.

 

(Machado de Assis, Memorial de Aires)

 

Luiz Antônio Marcuschi (Produção textual, análise de gêneros e compreensão, 2008) explica que a intertextualidade “supõe a presença de um texto em outro”, como se pode comprovar com a passagem:

  1. Em quase todas havia a mesma antiga súplica da nossa: “Orai por ele! Orai por ela!”
  2. … podia ser um pouco mais simples, — a inscrição e uma cruz…
  3. Rita, apesar da alegria do motivo, não pôde reter algumas velhas lágrimas…
  4. Achei-o novo demais, isso sim. Rita fá-lo lavar todos os meses…
  5. Talvez seja a única. A mana é boa criatura, não menos que alegre.
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Gabarito

A

Comentário do professor

Intertextualidade, como lembra Marcuschi, é a presença de um texto em outro. Na frase citada, o narrador reproduz literalmente uma fórmula encontrada em lápides: “Orai por ele! Orai por ela!”.


Trata‑se de um epitáfio tradicional, socialmente reconhecido, que entra no enunciado do narrador como material pré‑existente.


O emprego de aspas reforça a natureza de citação: o trecho não é criação original do narrador, mas inserção de um enunciado já circulante.


Assim, a relação estabelecida é de intertextualidade direta (citação), porque há reprodução literal de um texto externo, o que contribui para a verossimilhança e para o sentido coletivo do rito fúnebre na cena.

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