Questão FC217638
Leia o texto para responder à questão. O chá, os fantasmas, os ventos encanados Nasci no tempo dos ventos encanados, quando, para evitar compromissos, a gente dizia estar com enxaq
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Leia o texto para responder à questão.
O chá, os fantasmas, os ventos encanados
Nasci no tempo dos ventos encanados, quando, para evitar compromissos, a gente dizia estar com enxaqueca, palavra horrível mas desculpa distinta. Ter enxaqueca não era para todos, mas só para essas senhoras que tomavam chá com o dedo mindinho espichado. Quando eu via aquilo, ficava a pensar sozinho comigo (menino, naquele tempo, não dava opinião) por que é que elas não usavam, para cúmulo da elegância, um laçarote azul no dedo...
Também se falava misteriosamente em “moléstias de senhoras” nos anúncios farmacêuticos que eu lia. Era decerto uma coisa privativa das senhoras, como as enxaquecas, pois as criadas, essas, não tinham tempo para isso. Mas, em compensação, me assustavam deliciosamente com histórias de assombração. Nunca me apareceu nenhuma.
Pelo visto, era isso: nunca consegui comunicar-me com este nem com o outro mundo. A não ser através d’O tico-tico e da poesia de Camões, do qual até hoje me assombra este verso único: “Que o menor mal de tudo seja a morte!”
Pois a verdadeira poesia sempre foi um meio de comunicação com este e com o outro mundo.
(Mario Quintana. Da preguiça como método de trabalho, 2013. Adaptado)
De acordo com o texto, quando se dizia estar com enxaqueca, a intenção das pessoas era
- furtarem-se à responsabilidade de um compromisso.
- expressar a debilidade real de sua condição física.
- enfatizar a fragilidade emocional e física que as acometia.
- mostrar disponibilidade para assumir compromissos.
- desvincularem-se de compromissos de última hora.
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Gabarito
A
Comentário do professor
No trecho, o narrador afirma que, “no tempo dos ventos encanados, para evitar compromissos, a gente dizia estar com enxaqueca”. Essa indicação é a evidência direta para interpretar a expressão como uma desculpa social, não necessariamente uma queixa médica sincera.
Ao descrever a enxaqueca como “palavra horrível mas desculpa distinta”, o autor reforça que a menção servia como recurso para furtar-se à responsabilidade de um compromisso, pois conferia legitimidade à ausência.
Assim, a alternativa correta resume exatamente a intenção comunicada pelo narrador: usar a alegação de enxaqueca para evitar assumir um compromisso, isto é, esquivar-se de obrigações de modo socialmente aceitável.
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