Questão FC217654
Leia o texto de Walcyr Carrasco. Dias Tortos É um mistério do trânsito. A pista do lado sempre anda mais que a minha! Pior. Há dias em que todos os semáforos ficam vermelhos quando
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Leia o texto de Walcyr Carrasco.
Dias Tortos
É um mistério do trânsito. A pista do lado sempre anda mais que a minha! Pior. Há dias em que todos os semáforos ficam vermelhos quando me aproximo. Sempre quando tenho compromissos inadiáveis.
Passo semanas planejando ir a um restaurante do qual falam de um bacalhau fantástico. Cinquenta minutos de espera. Mal pego o cardápio, o garçom anuncia:
– O bacalhau hoje saiu todo…
Ahhhhhhhhhh! Filas de supermercado também me aterrorizam. Permaneço um tempão à espera. Quando a senhora à minha frente está terminando de passar os produtos, a caixa descobre uma melancia sem preço. Chama um rapaz para verificar. Ele demora horas. Finalmente a melancia é cobrada. A pessoa resolve pagar com cartão de débito. Mas esqueceu a senha. Ou o cartão não passa. Vem o gerente para resolver. E eu espero, espero! Quando chega a minha vez, a mocinha avisa:
– Um instantinho!
É a hora de mudar de caixa! Ela conta moeda por moeda.
A substituta troca o carretel de papel. Levanta-se para falar com o gerente. Todos os outros caixas estão vazios! Mas já tirei meus produtos do carrinho! E vai e vem, e vai e vem. Tenho vontade de berrar, mas dou apenas um longo suspiro.
Nas lojas, sempre há um obstáculo. Como uma senhora que pede dez pacotes de presente, todos com lacinhos, enquanto espero! Ou na livraria onde um senhor resolve contar a vida para o caixa, em detalhes!
Há dias que são assim, tortos. Tudo conspira para dar errado. Mas, felizmente, outros são o contrário. Acordo feliz sem saber por quê. Os semáforos estão verdes. Não há filas! A mocinha do caixa sorri e tenho vontade de bater papo com ela!
Será coisa do destino? Será que todos os dias são iguais, com coisas desagradáveis ou não? Serei eu que em alguns dias acho tudo péssimo e em outros, maravilhoso? Talvez seja essa a grande questão!
(VEJA-SP, 30.05.2007. Adaptado)
No último parágrafo, o cronista conclui o texto
- mostrando-se convicto de que a grande questão é viver sem ter de enfrentar dias desagradáveis.
- cogitando se o seu estado de espírito contribui para que ele considere alguns dias bons e outros ruins.
- maldizendo o próprio destino, que lhe tem trazido principalmente dias longos e repletos de infortúnios.
- servindo-se de perguntas retóricas que salientam seu descaso perante as adversidades dos dias ruins.
- reconhecendo sua culpa pelos dias tortos, já que ele é uma pessoa notoriamente pessimista e mal-humorada.
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Gabarito
B
Comentário do professor
No último parágrafo, o cronista conclui com uma reflexão sobre a própria experiência diária, não com uma sentença definitiva sobre o mundo.
As três perguntas retóricas — “Será coisa do destino? Será que todos os dias são iguais, com coisas desagradáveis ou não? Serei eu...” — revelam dúvida e autocrítica.
Ele está cogitando a possibilidade de que seu estado de espírito influencie a forma como classifica os dias como bons ou ruins.
Ou seja, a ênfase recai sobre a percepção subjetiva: os eventos externos permanecem, mas o modo como os interpretamos pode torná‑los mais suportáveis ou intoleráveis.
Portanto, a conclusão é reflexiva — o cronista questiona-se sobre sua própria sensibilidade diante dos acontecimentos, sugerindo que dias “tortos” podem ser, em parte, fruto de seu olhar.
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