Questão FC217666
Assim recomendou a revista The Economist, num artigo que se propunha a ditar o que devem ler aqueles que querem escrever melhor. O que deve ler um bom escritor, segundo os economis
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Leia o texto para responder a questão.
Sobre escrever bem: uma declaração contra o império da simplicidade
Que tudo seja expresso com o mínimo de ruído, que o leitor compreenda de imediato cada mensagem, que as sentenças sejam diretas e limpas, concisas e coerentes – e que se escolha apenas um desses adjetivos para dizer o que se deseja. No império da simplicidade, eliminar palavras é o gesto literário por excelência. E assim vamos formando uma geração de escritores contrários ao dicionário e à linguagem; e uma geração de leitores que só desejam histórias fortes narradas limpidamente.
Ao escritor cabe sobretudo o medo. Deve temer os termos longos e abstratos, cada um passível de se tornar um peso morto sobre a página, a assombrar os leitores também assustados. Deve temer as palavras incomuns, as estranhas, as antigas, maculadas pela poeira dos séculos. Deve temer o olhar dos críticos, encarados como fiscais da clareza, e fugir de seu juízo definitivo de pretensão excessiva, de vaidade ou pedantismo. Ao escritor cabe a dieta da língua: ingerir apenas palavras magras e nutritivas, que não suscitem qualquer risco de resultarem indigestas aos estômagos sensíveis.
Assim recomendou a revista The Economist, num artigo que se propunha a ditar o que devem ler aqueles que querem escrever melhor. O que deve ler um bom escritor, segundo os economistas?
Uma sequência de manuais de estilo que defendem sempre a mesma doutrina, a começar pelo manual clássico do escritor George Orwell, que parece ter aberto a tradição de ataque à escrita obscura ou labiríntica, a tradição de defesa da razão, algo que só se encontraria nas palavras cotidianas reunidas na ordem costumeira. Que a literatura siga as diretrizes de eficácia que regem o pensamento econômico, que se faça objetiva e vendável, com custos mínimos: nisso culminam tantos princípios.
Para dar riqueza a essa visão um tanto empobrecida, evocam-se sempre alguns grandes nomes da boa literatura concisa. Entre anglófonos, Ernest Hemingway é incensado como modelo maior da economia das letras. Entre brasileiros, Graciliano Ramos se torna a referência máxima, na obsessão por um estilo seco assemelhado às vidas que ele retrata.
(FUKS, Julián. Em: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/ julian-fuks/2023/10/07/sobre-escrever-bem-uma-declaracao-contra- -o-imperio-da-simplicidade.htm. 07.10.2023. Adaptado)
Na opinião do autor, as consequências do que ele denomina “império da simplicidade”
- afetam não só escritores, mas também leitores.
- têm maior impacto sobre escritores pouco experientes.
- atingem mais fortemente textos de caráter técnico.
- levam a uma maior exploração dos recursos da língua.
- proporcionam maior liberdade criativa aos escritores.
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Gabarito
A
Comentário do professor
O autor sustenta que o chamado “império da simplicidade” não incide apenas sobre o ato de escrever, mas também sobre quem lê: afeta escritores e leitores.
No texto, ele descreve uma “geração de escritores” submetida a uma verdadeira dieta da língua, temerosa de termos longos, incomuns ou abstratos, evitando qualquer risco de parecer pedante.
Paralelamente, identifica uma “geração de leitores” que passa a preferir apenas narrativas fortes e narradas com clareza absoluta, reduzindo sua abertura a estilos mais complexos ou verbosos.
Assim, a consequência apontada é dupla: a norma da simplicidade molda práticas de escrita e, ao mesmo tempo, limita expectativas e repertório linguisticocultural dos leitores.
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