Questão FC217677
Leia o texto para responder à questão. Por vezes assalta-me a sensação de que estou me esquecendo da realidade com a mesma rapidez com que me esqueço dos sonhos. Começa a ser difíc
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Leia o texto para responder à questão.
Por vezes assalta-me a sensação de que estou me esquecendo da realidade com a mesma rapidez com que me esqueço dos sonhos. Começa a ser difícil saber se estou me esquecendo de um sonho ou da realidade.
Acontece-me, por exemplo, assistir a um filme e, no meio, descobrir que já o vi antes. Com os livros de ficção, isso nunca me aconteceu, o que me leva a supor que a leitura implique uma mobilização mais profunda de certas áreas do cérebro. Faz sentido, na medida em que ao lermos um romance somos convidados a recriá-lo, imaginando o rosto dos personagens, e uma larga parte dos cenários e das situações. Cada leitor rescreve o romance que está lendo.
O problema é que aquilo que me acontece com os filmes também ocorre com as pessoas. Encontro com alguém num casamento, começamos a conversar, e só quando a festa se aproxima do fim é que o reconheço.
Pode ser que o problema não seja meu, e sim do cinema que se faz hoje – e da atual humanidade. Talvez eu julgue estar revendo um filme, e seja um outro; no entanto, os enredos, o estilo, os cenários, é tudo tão parecido que muito antes do final eu já conheço o desfecho.
Para funcionar, da forma mais eficiente possível, um exército começa por uniformizar os seus soldados; ou seja, por lhes retirar a individualidade. As nossas sociedades tecnológicas estão fazendo o mesmo a um nível mais íntimo e profundo. Acho isso assustador.
Fico feliz quando encontro um filme (ou uma pessoa) capaz de me surpreender, como “Dias perfeitos”, de Wim Wenders, que acompanha o cotidiano de um homem de meia-idade, Hirayama, responsável pela limpeza de banheiros públicos em Tóquio. Hirayama cumpre a sua tarefa com extraordinário zelo e dedicação.
Na sua aparente simplicidade, Hirayama distingue-se de quem o rodeia. Não é uniformizável. O faxineiro erudito de Wim Wenders é um colecionador de pequenos espantos, de fulgores e de momentos únicos. É um colecionador de vida. Pessoas e personagens assim são inconfundíveis e inesquecíveis. Precisamos deles para travar a uniformização do mundo e ressuscitar a alegria e o espanto.
(José Eduardo Agualusa. A vida ambiciona o espanto. https://oglobo.globo. com, 03.02.2024. Adaptado)
A partir da leitura do texto, é correto afirmar que seu autor considera que
- a repetição de elementos de certas obras audiovisuais o aborrece por evidenciar suas próprias expectativas e níveis de cobrança.
- a tendência a uma homogeneização observada na sociedade é algo a ser combatido ainda que pelo uso de narrativas ficcionais.
- o filme do alemão Wim Wenders chamou-lhe atenção por retratar um faxineiro de banheiros japonês que não trajava uma roupa padronizada.
- a sua dificuldade em reconhecer pessoas é um reflexo da produção desenfreada e pouco inovadora da indústria cinematográfica.
- a leitura de obras literárias supera o consumo de material audiovisual devido à possibilidade de manipular histórias segundo os próprios anseios.
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Gabarito
B
Comentário do professor
O autor identifica uma tendência de perda da singularidade humana causada por forças sociais e culturais — descreve que, para funcionar eficientemente, um exército "uniformiza os seus soldados" e que "as nossas sociedades tecnológicas estão fazendo o mesmo".
Ele valoriza explicitamente obras de ficção que rompem esse padrão: apresenta Hirayama como exemplo de personagem que “não é uniformizável”, um indivíduo capaz de surpreender e conservar a individualidade.
Daí a conclusão: o autor defende combater a homogeneização social e reconhece nas narrativas ficcionais um recurso legítimo para isso, pois personagens singulares ajudam a "travar a uniformização do mundo" e a ressuscitar a alegria e o espanto.
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