Questão FC217680
Mas será que os mortais ainda se lembram do sorriso franco, dos sentimentos limpos e de uma gentileza genuína? Será que sentem saudades?
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Um filme revolucionário
Para muitos, a época do Natal é o momento da suprema hipocrisia. Durante 24 horas, ou talvez 48, os sorrisos são forçados, os sentimentos são de plástico e a gentileza, se merece o nome, não consegue esconder completamente a profundidade do ressentimento contra amigos ou familiares.
Mas será que os mortais ainda se lembram do sorriso franco, dos sentimentos limpos e de uma gentileza genuína? Será que sentem saudades?
Para esses nostálgicos, aconselho o filme “A Menina Silenciosa”, de Colm Bairéad, inspirado no livro “Foster”, de Claire Keegan. É o meu filme do ano, para usar a linguagem gasta dos balanços jornalísticos.
A história é simples, ou parece simples: Cáit (espantosa Catherine Clinch) é uma criança de nove anos que sobrevive (é o termo) numa família que a ignora e despreza. O seu método de sobrevivência é o silêncio, a quietude e a observação. Para usar uma palavra clássica, Cáit é uma “enjeitada”. A mãe é uma figura exausta e ausente. O pai alcoólatra tem a delicadeza própria das bestas. E as irmãs mais velhas são espectros sem rosto e sem voz.
Mas então os pais, que esperam uma nova criança e não têm tempo para Cáit, decidem enviá-la para a casa de Eibhlín e Seán, familiares distantes, só para passar o verão, e a garota é assim levada para um ambiente estranho. Decisão milagrosa, pois eles acolhem-na e, logo nos primeiros momentos, entendemos que algo mudou.
Uma diferença nos gestos, digamos assim. Gestos de quem cuida.
Naquele verão, Cáit conhece essa coisa extraordinária: uma família, partilhando com ela as suas alegrias e tristezas, as suas rotinas, as suas conversas. Lentamente, a “menina silenciosa” vai saindo do seu casulo. “A Menina Silenciosa” é um filme revolucionário por tratar do mais revolucionário dos temas: a bondade humana.
Não é uma daquelas virtudes mentirosas para ser exibida nas redes sociais e que apenas serve para alimentar a vaidade do suposto virtuoso. Também não é uma mera proclamação ideológica, abstrata, ideal, própria de quem ama a humanidade, mas despreza o ser humano comum.
Como lembrava Emmanuel Levinas*, a bondade é uma virtude interpessoal. Ela só acontece face a face. A bondade nada exige, nada espera, nada impõe. É pura hospitalidade.
É abertura e reconhecimento.
E, como no filme, talvez seja um dia reciprocidade.
(João Pereira Coutinho. ‘A Menina Silenciosa’ é um filme revolucionário ao tratar
da bondade humana. www.folha.uol.com.br/colunas, 22.12.2023. Adaptado)
*Emmanuel Levinas: filósofo francês (1906-1995)
Com base nas informações do texto, é correto afirmar que
- os textos jornalísticos têm, para Pereira Coutinho, o mérito de pôr os leitores em contato com uma linguagem permanentemente inovadora e destituída de clichês.
- Cáit se sente temerosa quando os pais, inicialmente avessos à ideia, permitem que ela passe o verão na casa dos parentes Eibhlín e Seán.
- Eibhlín e Seán, que conheciam de antemão a situação humilhante vivida por Cáit, redobram a atenção e o carinho dedicados à menina.
- a recordação contínua de momentos que ficaram marcados por sentimentos puros e gentileza desinteressada é comportamento inerente aos seres humanos.
- indivíduos, movidos pelo narcisismo, usam a internet para ostentar as supostas virtudes, outros são hipócritas quando dizem gostar da humanidade.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
A alternativa correta sintetiza duas críticas centrais presentes no texto: a exibição de virtudes nas redes e a hipocrisia de quem diz amar a humanidade.
O autor chama essas demonstrações de "virtudes mentirosas para ser exibida nas redes sociais", indicando que muitos manifestam bondade apenas para alimentar a vaidade e o narcisismo. Essa passagem sustenta a ideia de que a internet é usada para ostentar supostas qualidades.
Além disso, o texto afirma que não se trata de uma mera proclamação abstrata, e menciona explicitamente quem “ama a humanidade, mas despreza o ser humano comum”, apontando a existência de uma bondade hipócrita — discurso grandioso que não se traduz em atitudes concretas.
Portanto, a alternativa E é uma inferência direta e fiel ao texto: combina a crítica ao narcisismo virtual com a identificação da hipocrisia moral presente em certos discursos.
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