Questão FC217698
Anteontem saí do prédio a caminho da padaria e cada filho meu agarrou uma mão. Foi um gesto automático, cotidiano, mas que me trouxe uma daquelas picadas epifânicas: já estamos nos
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Anteontem saí do prédio a caminho da padaria e cada filho meu agarrou uma mão. Foi um gesto automático, cotidiano, mas que me trouxe uma daquelas picadas epifânicas: já estamos nos acréscimos. A Oli tem dez, o Dani tem oito, num piscar de olhos nenhum deles vai querer pegar na minha mão, vão ter repulsa a qualquer toque e até vergonha da minha presença. Posso ouvi-los, adolescentes, batendo a porta do quarto na minha cara, logo depois de dizerem “ai, pai, como você é burro!”.
Aquelas bisnaguinhas mornas e macias buscando segurançaem minhas mãos, ainda acreditando na mentira de que eu posso protegê-los dos perigos do mundo, eram ao mesmo tempo uma bitoca da vida e um piparote da morte. O universo me premiando com a Mega-Sena e gritando no meu ouvido “perdeu, mané!”.
Outro dia eu estava saindo da ponte aérea e da fileira ao lado levantou uma mãe descabelada, olheiras de guaxinim: um filho de uns oito meses semiacordado e todo troncho no braço esquerdo, uma mochila da Peppa Pig no braço direito, a pasta de trabalho pendurada no pescoço, virada pras costas, enforcando-a, a mamadeira e uma chupeta entre os dedos que apertavam o bumbum do menino; o retrato clássico de malabarismo indigente da jovem mãe. Notei que um tênis da criança tinha ficado na poltrona. Entreguei a ela, que o meteu, com dificuldade, num bolso traseiro da calça jeans.
Lembrei das tantas vezes que ouvi, quando tinha bebês, “aproveita que passa rápido!”. Soava como um conselho bizarro em meio às noites mal dormidas, ao cocô vazado da fralda, às voltas de carro pelo City Boaçava, porque era um bairro com pouco farol e se parasse no cruzamento o bebê acordava aos urros. Daí me peguei morrendo de vontade de cutucar o ombro da mulher e falar “aproveita que passa rápido!”. Ela me olharia com o mesmo assombro que devolvi a tantas pessoas bem-intencionadas, dez anos atrás. A experiência é incomunicável.
São raros os momentos em que a gente se dá conta: isso aqui é a vida, isso aqui é o importante, não tem nada além, tem só, agarradas às minhas, essas duas mãozinhas e o sentimento do mundo. Foi um segundo a iluminação do raio e já veio o susto do trovão: tá passando, vai passar.
(Antonio Prata. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/ 2023/12/as-bisnagas-e-o-trovao.shtml. 23.12.2023. Adaptado)
No texto, o cronista narra o momento em que repentinamente se deu conta de que
- o fato de os filhos ainda crianças lhe serem hostis o aborrecia.
- a infância dos filhos não demoraria a terminar.
- os filhos não apreciavam mais sua presença e companhia.
- estava chegando o momento de os filhos partirem de casa.
- filhos adolescentes são o maior desafio que têm os pais.
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Gabarito
B
Comentário do professor
O cronista relata uma súbita epifania: ao segurar as mãos dos filhos, percebe que aquele gesto cotidiano é efêmero e que a fase infantil está prestes a acabar. A expressão "já estamos nos acréscimos" funciona como pista direta dessa tomada de consciência.
Ao detalhar idades (dez e oito anos) e imaginar o futuro em que serão adolescentes que o evitarão, o narrador traduz o sentimento de passagem rápida do tempo. A lembrança da mãe exausta e a frase ouvida outrora — "aproveita que passa rápido" — reforçam a ideia central: a infância não vai durar.
Assim, a melhor síntese do texto é que o autor percebeu, de forma repentina e dolorida, que a infância dos filhos está terminando.
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