Questão FC217699
Anteontem saí do prédio a caminho da padaria e cada filho meu agarrou uma mão. Foi um gesto automático, cotidiano, mas que me trouxe uma daquelas picadas epifânicas: já estamos nos
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Anteontem saí do prédio a caminho da padaria e cada filho meu agarrou uma mão. Foi um gesto automático, cotidiano, mas que me trouxe uma daquelas picadas epifânicas: já estamos nos acréscimos. A Oli tem dez, o Dani tem oito, num piscar de olhos nenhum deles vai querer pegar na minha mão, vão ter repulsa a qualquer toque e até vergonha da minha presença. Posso ouvi-los, adolescentes, batendo a porta do quarto na minha cara, logo depois de dizerem “ai, pai, como você é burro!”.
Aquelas bisnaguinhas mornas e macias buscando segurançaem minhas mãos, ainda acreditando na mentira de que eu posso protegê-los dos perigos do mundo, eram ao mesmo tempo uma bitoca da vida e um piparote da morte. O universo me premiando com a Mega-Sena e gritando no meu ouvido “perdeu, mané!”.
Outro dia eu estava saindo da ponte aérea e da fileira ao lado levantou uma mãe descabelada, olheiras de guaxinim: um filho de uns oito meses semiacordado e todo troncho no braço esquerdo, uma mochila da Peppa Pig no braço direito, a pasta de trabalho pendurada no pescoço, virada pras costas, enforcando-a, a mamadeira e uma chupeta entre os dedos que apertavam o bumbum do menino; o retrato clássico de malabarismo indigente da jovem mãe. Notei que um tênis da criança tinha ficado na poltrona. Entreguei a ela, que o meteu, com dificuldade, num bolso traseiro da calça jeans.
Lembrei das tantas vezes que ouvi, quando tinha bebês, “aproveita que passa rápido!”. Soava como um conselho bizarro em meio às noites mal dormidas, ao cocô vazado da fralda, às voltas de carro pelo City Boaçava, porque era um bairro com pouco farol e se parasse no cruzamento o bebê acordava aos urros. Daí me peguei morrendo de vontade de cutucar o ombro da mulher e falar “aproveita que passa rápido!”. Ela me olharia com o mesmo assombro que devolvi a tantas pessoas bem-intencionadas, dez anos atrás. A experiência é incomunicável.
São raros os momentos em que a gente se dá conta: isso aqui é a vida, isso aqui é o importante, não tem nada além, tem só, agarradas às minhas, essas duas mãozinhas e o sentimento do mundo. Foi um segundo a iluminação do raio e já veio o susto do trovão: tá passando, vai passar.
(Antonio Prata. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/ 2023/12/as-bisnagas-e-o-trovao.shtml. 23.12.2023. Adaptado)
É correto afirmar que o cronista
- lamenta o fato de os filhos acreditarem estar protegidos ao segurarem sua mão.
- arrepende-se de não ter prestado maior solidariedade à mãe que encontrou no avião.
- revela incômodo por não ter estado mais tempo na companhia dos filhos quando eram bebês.
- considera impossível exprimir o que viveu com os filhos quando eles ainda eram bebês.
- busca meios de atrasar o desenvolvimento dos filhos, para que mantenham a inocência da infância.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Impossível exprimir: o cronista afirma que a vivência íntima da paternidade na fase dos bebês não se comunica por inteiro — literalmente diz que a “experiência é incomunicável”.
Como prova, ele relata a epifania ao segurar as mãos dos filhos e a sensação simultânea de alegria e perda, além do impulso de aconselhar a mãe no avião com o “aproveita que passa rápido”, sabendo que tal conselho não traduziria a profundidade do que sentiu.
Portanto, o autor não nega ou minimiza os fatos; enfatiza que a intensidade e a fugacidade desses afetos e memórias tornam-se indeclináveis à expressão, justificando a alternativa correta.
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