Questão FC217700
Anteontem saí do prédio a caminho da padaria e cada filho meu agarrou uma mão. Foi um gesto automático, cotidiano, mas que me trouxe uma daquelas picadas epifânicas: já estamos nos
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Anteontem saí do prédio a caminho da padaria e cada filho meu agarrou uma mão. Foi um gesto automático, cotidiano, mas que me trouxe uma daquelas picadas epifânicas: já estamos nos acréscimos. A Oli tem dez, o Dani tem oito, num piscar de olhos nenhum deles vai querer pegar na minha mão, vão ter repulsa a qualquer toque e até vergonha da minha presença. Posso ouvi-los, adolescentes, batendo a porta do quarto na minha cara, logo depois de dizerem “ai, pai, como você é burro!”.
Aquelas bisnaguinhas mornas e macias buscando segurançaem minhas mãos, ainda acreditando na mentira de que eu posso protegê-los dos perigos do mundo, eram ao mesmo tempo uma bitoca da vida e um piparote da morte. O universo me premiando com a Mega-Sena e gritando no meu ouvido “perdeu, mané!”.
Outro dia eu estava saindo da ponte aérea e da fileira ao lado levantou uma mãe descabelada, olheiras de guaxinim: um filho de uns oito meses semiacordado e todo troncho no braço esquerdo, uma mochila da Peppa Pig no braço direito, a pasta de trabalho pendurada no pescoço, virada pras costas, enforcando-a, a mamadeira e uma chupeta entre os dedos que apertavam o bumbum do menino; o retrato clássico de malabarismo indigente da jovem mãe. Notei que um tênis da criança tinha ficado na poltrona. Entreguei a ela, que o meteu, com dificuldade, num bolso traseiro da calça jeans.
Lembrei das tantas vezes que ouvi, quando tinha bebês, “aproveita que passa rápido!”. Soava como um conselho bizarro em meio às noites mal dormidas, ao cocô vazado da fralda, às voltas de carro pelo City Boaçava, porque era um bairro com pouco farol e se parasse no cruzamento o bebê acordava aos urros. Daí me peguei morrendo de vontade de cutucar o ombro da mulher e falar “aproveita que passa rápido!”. Ela me olharia com o mesmo assombro que devolvi a tantas pessoas bem-intencionadas, dez anos atrás. A experiência é incomunicável.
São raros os momentos em que a gente se dá conta: isso aqui é a vida, isso aqui é o importante, não tem nada além, tem só, agarradas às minhas, essas duas mãozinhas e o sentimento do mundo. Foi um segundo a iluminação do raio e já veio o susto do trovão: tá passando, vai passar.
(Antonio Prata. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/ 2023/12/as-bisnagas-e-o-trovao.shtml. 23.12.2023. Adaptado)
Uma ideia de oposição é apresentada em:
- Anteontem saí do prédio a caminho da padaria e cada filho meu agarrou uma mão. (1º parágrafo)
- ... batendo a porta do quarto na minha cara, logo depois de dizerem “ai, pai, como você é burro!”. (1º parágrafo)
- ... eram ao mesmo tempo uma bitoca da vida e um piparote da morte. (2º parágrafo)
- ... estava saindo da ponte aérea e da fileira ao lado levantou uma mãe descabelada... (3º parágrafo)
- Soava como um conselho bizarro em meio às noites mal dormidas... (4º parágrafo)
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Na oração “eram ao mesmo tempo uma bitoca da vida e um piparote da morte” o autor reúne duas imagens opostas para exprimir um sentimento ambivalente.
O contraste entre vida (bitoca: afeto, calor) e morte (piparote: golpe, fim) configura uma antítese — ideias semanticamente contrárias colocadas lado a lado — e, pela união de termos conflitantes, um paradoxo que intensifica a emoção do narrador.
O conectivo “ao mesmo tempo” sinaliza simultaneidade dessa dualidade: o gesto é terna demonstração de amor e, simultaneamente, lembrança dolorosa da passagem do tempo e da perda gradual da infância.
Assim, a frase funciona como recurso estilístico que traduz, de modo conciso e contundente, a melancolia e o temor do pai diante do crescimento dos filhos.
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