Questão FC217711
Mal nos limpamos da areia contrabandeada do Réveillon, e o ano já chega repleto de propostas de trabalho, estudo, esporte e lazer. Energias renovadas e um certo erro de cálculo nos
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Mal nos limpamos da areia contrabandeada do Réveillon, e o ano já chega repleto de propostas de trabalho, estudo, esporte e lazer. Energias renovadas e um certo erro de cálculo nos fazem crer que as promessas assumidas hoje encontrarão a mesma pessoa para pagá-las amanhã.
Agenda cheia é a marca da pessoa produtiva e plena de energia, ou seja, eternamente jovem e bem-sucedida. Não é o caso da mão de obra em uma grande cidade, cujo deslocamento para o emprego ocupa grande parte do dia, da paciência e da saúde. Essa sonha com tempo livre do qual não pode dispor, pois seu sustento está sob ameaça perene.
Acostumada a receber convites para dar palestras em diferentes instituições e sem poder ir a todas, me surpreendi com uma resposta específica a uma negativa minha. A pessoa queria entender a razão pela qual eu não poderia atender a solicitação dela que, afinal, ocorreria à noite, só se estenderia por duas horas e era perto da minha casa. Para me justificar, desfiei o rosário dos compromissos que assumi logo nos primeiros dias do ano: consultório, aulas, grupos de estudo, livro, coordenação de um instituto. A petulância diante do meu “não” seria só uma anedota, se não me tivesse percebido tão irritada. Daí, claro, já não se trata da falta de sensibilidade do anfitrião, a quem respondi educadamente, mas de um incômodo comigo mesma.
Meu mal-estar decorria do fato de eu cobrar de mim aceitar um evento à noite, que só dura duas horas e é perto da minha casa. Minha resposta apresentando os compromissos previamente assumidos era para aplacar a fúria de alguém que se espelha em um fazer sem descanso. Daí que, se quisermos rever uma produtividade que começa logo ao abrir os olhos com o uso do celular, teremos que dizer “não” para nós mesmos antes de tudo.
(Vera Iaconelli. A arte de dizer não para si. www1.folha.uol.com.br, 29.01.2024. Adaptado)
Da experiência que a autora do texto relatou ter vivenciado, é possível concluir que
- os compromissos foram inventados por ela para refutar um convite pouco interessante.
- a sua resposta grosseira deve-se à insistência de quem já havia recebido uma resposta negativa.
- o seu objetivo é deixar de olhar o celular assim que acorda para ser mais produtiva.
- a chateação que lhe sobreveio foi causada por um limite próprio que ela quase ultrapassou.
- a cobrança que ela recebeu de alguém a quem devia favores a deixou desconfortável.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A alternativa está correta porque o texto deixa claro que o incômodo da autora não vinha da recusa em si, nem da falta de compromissos, mas de uma cobrança interna: ela se viu dividida ao perceber que o convite “só dura duas horas e é perto da minha casa” e, por isso, quase cederia. Esse sentimento é descrito como um mal-estar originado de uma exigência pessoal por produtividade.
Ao desfazer o rosário dos compromissos como justificativa, a autora revela que apresentou razões externas para apaziguar uma pressão interna. Assim, sua chateação decorre de ter quase ultrapassado um limite próprio — a dificuldade de dizer “não” a si mesma quando a rotina pede contenção.
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