Questão FC217730
Leia o texto para responder à questão. Eu ia dando a minha voltinha num silêncio interior de paz. Está difícil perambular nas ruas de hoje. Muito barulho, carros voando ou atravanc
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Leia o texto para responder à questão.
Eu ia dando a minha voltinha num silêncio interior de paz. Está difícil perambular nas ruas de hoje. Muito barulho, carros voando ou atravancando a calçada, anda sobrecarregado o ar que respiramos. Mas há sempre o que ver, se levamos olhos desprevenidos, de simpatia.
Eu ia andando pra clarear as ideias, ou pra pensar em nada. Nessa hora de entrega e de inocência é que acontece a iluminação. A luzinha do entendimento acende onde quer.
Sem nenhum objetivo, ia eu bem satisfeitinho na minha disponibilidade. Aberto a qualquer convite, podia comprar um bombom, ou uma flor. A gente sabe que o endereço da felicidade é no passado e é mentira. Mas é bom que exista, a felicidade. Nem que seja um momentinho só. Tão rico que dá pra ir vivendo. E se renova com qualquer surpresa boba. Encontrar por exemplo na banca uma revista fútil e dar com a foto daquela moça bonita. Olhar seus olhos e entendê-los, olhos adentro.
A vida é um mundo de possibilidades. Atração e repulsa, afinidades. Convergência e divergência. Nessa altura, as minhas pernas tinham me levado pro mundo da Lua. Quando me dei conta, estava espiando uma fila que tomava a calçada. […] De repente, os aposentados saíram da toca e estão na rua, pacientes em fila ou irados aos magotes.
Mas aquela fila não podia ser de aposentados. Tinha muitos jovens. Um pequeno interesse, receber um dinheirinho, ou uma pequena obrigação, pagar uma conta, juntou na fila aquele pessoal todo. Misterioso caminho, esse, que aproxima as pessoas por um instante e depois as separa. Há de ver que ali estavam lado a lado duas almas que se procuram e, distraídas, disso não se aperceberam. O acaso, o destino, quanta coisa passa por uma cabeça vadia! Ou por um coração volúvel.
(Otto Lara Resende. A rua, a fila, o acaso. https://cronicabrasileira.org.br, 23.09.1992. Adaptado)
Glossário
aos magotes: aos montes.
A partir da leitura do texto, é correto afirmar que o narrador
- considera caminhar sem rumo pela cidade um ato prazeroso desde que se seja jovem.
- entende a felicidade como algo importante e inesperado, mesmo que ocorra pontualmente.
- prefere pensar em questões relevantes a deixar que banalidades do dia a dia o distraiam.
- acredita que seus passeios despreocupados podem lhe trazer felicidades como nunca antes.
- tem consigo que encontrar o que ver no mundo independe de disposição de espírito.
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Gabarito
B
Comentário do professor
O narrador vê a felicidade como algo valorizado, ainda que passageiro e imprevisível.
Ele afirma que "o endereço da felicidade é no passado e é mentira", mas imediatamente afirma: "Mas é bom que exista, a felicidade. Nem que seja um momentinho só." Esse trecho mostra que, apesar de desconfiar de idealizações, reconhece o valor de instantes felizes.
A perspectiva do narrador é de abertura ao acaso: ao caminhar sem objetivo, permite-se pequenas alegrias — encontrar uma revista, ver a foto de uma moça — que renovam a felicidade.
Portanto, ele entende a felicidade como importante e frequentemente inesperada, válida mesmo quando ocorre pontualmente.
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