Questão FC217738
Vocês desculpem tocar nesse assunto, mas a verdade é que está morrendo muita gente. Outro dia peguei por acaso num antigo caderninho de endereços que estava no fundo de uma gaveta,
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Vocês desculpem tocar nesse assunto, mas a verdade é que está morrendo muita gente. Outro dia peguei por acaso num antigo caderninho de endereços que estava no fundo de uma gaveta, comecei a folhear e esfriei: quanto telefone de gente que já morreu!
Eu e um amigo estivemos imaginando uma Cidade dos Mortos que funcionasse mais ou menos como esta em que vivemos: uma cidade em que estivessem vivendo os mortos nossos conhecidos, os nossos mortos. Tinha muita gente, e gente ótima; é verdade também que alguns chatos; isso faz parte. Mas havia bons companheiros de praia, bons amigos de bar, excelentes papos. Poucas, raras mulheres de nossa estima; as mulheres, pelo visto, não costumam falecer.
O pior – dizia meu amigo, e eu batia a cabeça tristemente, a concordar – o pior é que esse “lado de lá” vai aumentando, e se a gente demorar muito por aqui acaba falando sozinho.
Embora eu não tenha nada contra o espiritismo, não acredito muito nessa história de sujeitos que baixam em sessões de subúrbio, cem, duzentos anos depois de morrer. Acho que depois de certa idade (idade de falecido) o morto não acredita mais em espiritismo. Considera-o uma impertinência dos vivos.
Tenho poucas mortas. Mas como são queridas! O engraçado é que à medida que o tempo passa elas vão ficando um pouco parecidas, vão-se fazendo irmãs, mesmo as que jamais se conheceram. Aparecem raramente e sempre caçoam um pouco de mim, mas com um jeito de carinho. Não faz mal que não me levem muito a sério; não mereço.
Mas a verdade é que nos piores momentos de minha vida sempre senti uma imponderável mão em minha cabeça; então fecho os olhos e me entrego a esse puro carinho, sem sequer me voltar para ver se é minha mãe, minha irmã ou uma doce, infeliz amiga ou apenas a leve brisa em meus cabelos.
(Rubem Braga. Desculpem tocar no assunto. https://cronicabrasileira.org.br, 14.06.1969. Adaptado)
A partir da leitura do texto, é correto afirmar que o seu narrador
- receia ser um dos últimos a morrer ao constatar que vão se assomando aqueles que estão perdendo a vida.
- vê a si mesmo como sério demais, de modo que não compreende como até os mortos podem rir dele.
- procura sua agenda para olhar quem ainda está nela e espanta-se com a desatualização que nela encontra.
- depreende do alto número de conhecidas que ainda estão vivas que estas têm saúde melhor que a dos homens.
- não vê com naturalidade a existência de pessoas mais enfadonhas no círculo de quem tem tantas pessoas agradáveis à sua volta.
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Gabarito
A
Comentário do professor
A alternativa está correta porque o narrador manifesta preocupação com o aumento dos mortos entre seus conhecidos: ao folhear o caderninho, ele se assusta com “quanto telefone de gente que já morreu” e constata que “esse lado de lá vai aumentando”.
Essas frases funcionam como evidência direta de que ele percebe um crescimento constante dos que partiram. Isso gera nele a ideia de que, se a tendência continuar, restarão poucos vivos para conversar.
Ao dizer que “se a gente demorar muito por aqui acaba falando sozinho”, o narrador revela medo de isolamento e a sensação de que pode ser um dos últimos a permanecer vivo.
Portanto, a leitura do texto sustenta que ele receia ser um dos últimos a morrer, diante da progressiva diminuição do convívio com os vivos.
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