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Questão FC217764

Por que levantar o braço para colher o fruto? A máquina o fará por nós. Por que labutar no campo, na cidade? A máquina o fará por nós. Por que pensar, imaginar? A máquina o fará po

Interpretação de Textos (Compreensão)

VUNESP · 2024

Leia o texto, para responder à questão.

LADAINHA


Por que o raciocínio,
Os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado,
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
Mais fáceis que um sorriso.


Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial
Dando-lhe um ritmo extra-corporal?


Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Por que fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Por que subir a escada de Jacó?


A máquina o fará por nós.
Ó máquina, orai por nós.


(Cassiano Ricardo. Jeremias sem chorar.)

 

Sabendo-se que o poema foi publicado pela primeira vez em 1963, é correto afirmar que o eu lírico

  1. trata a máquina como um antagonista do ser humano, que se tornará robotizado e dependente dela para o que precisar fazer.
  2. antevê na máquina um engenho capaz de sobrepujar o ser humano, dando a ela estatuto de objeto de devoção.
  3. anuncia a máquina como uma ameaça à humanidade, que poderá ser condenada ao ostracismo e à insensibilidade.
  4. propõe que se use a máquina como força de produção capaz de prover as necessidades do homem, poupando-o de sofrer.
  5. celebra a invenção da máquina como meio de superar crises, em razão da possibilidade de mecanização de ações.
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Gabarito

B

Comentário do professor

O eu lírico antevê na máquina não apenas uma substituta de funções humanas, mas um agente que *sobrepuja* o homem, conferindo-lhe nova autoridade simbólica.

A repetição enfática — "A máquina o fará por nós" — cria ritmo e acumula ações humanas transferidas à máquina, sugerindo perda de agência humana.

O verso final — "Ó máquina, orai por nós" — desloca o tom para uma invocação quase religiosa: a máquina recebe um **estatuto de objeto de devoção**, pedido de intercessão.

Essa convergência de anáforas e invocação revela uma leitura crítica e irônica: o poeta prevê a elevação da máquina ao lugar simbólico antes reservado ao humano ou ao divino.

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