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Questão FC217783

Leia o texto para responder à questão. O homem da Rabeca A casa para onde me mudei nada tinha de confortável e resguardada. Somente alta e mais clara que o primeiro andar da rua do

Interpretação de Textos (Compreensão)

VUNESP · 2024

Leia o texto para responder à questão.

O homem da Rabeca

 

A casa para onde me mudei nada tinha de confortável e resguardada. Somente alta e mais clara que o primeiro andar da rua do Sol.

 

Devia já ser velha; os tetos baixos e o soalho carunchoso tremiam em os chinelos arrastando. Pelos buracos do rodapé, as baratas saltavam de noite aos rebanhos, em cata de alimento. Mas de manhã a coisa mudava – rompia alegremente o sol, como um companheiro folgazão, e no parapeito da varanda, as pombas do marceneiro vinham arrulhar beijando-se, com esse movimento coquette1 de cabecinhas graciosas. Um pé de eloendro florido chamava as abelhas, abrindo-lhes as corolas róseas num cândido aroma de beijos, e em anfiteatro, alargando-se da Baixa ao cimo das colinas de uma banda, e até ao azul do rio da outra, a casaria da cidade, liberta dos últimos vapores da noite, expunha as suas fachadas brancas, monotonamente cortadas de janelas, sobre que os tetos caíam em pirâmides alongadas, e de que as chaminés furavam agressivamente aqui e além, fumando na risonha luz recém-nascida.

 

A primeira coisa que pude notar na vizinhança foi que não havia uma cara bonita. Em baixo, na loja do prédio fronteiro, a mulher do lugar, suja e gasta, era repelente com os seus enormes sapatos de ourelo e o corpete do vestido constantemente descerrado. No primeiro andar, engomadeiras com cara de homem, cabeludas e amarelas, vinham raro à janela para lançar olhares oblíquos sobre as casas alheias. Por cima era uma mestra – ao lado um veterano eternamente à janela, de barrete azul, fumando no seu cachimbo disforme. Na rua estreita e tortuosa, todos se conheciam; crianças brincavam descalças e ranhosas, tocando latas; de manhã era uma gralhada de janela para janela sobre a carestia das coisas e as carraspanas dos maridos – e o mesmo padeiro servia as famílias, demorando-se de palestra pelas escadas.

(Fialho de Almeida, “O homem da Rabeca”. Em:

Massaud Moisés. A Literatura Portuguesa Através Dos Textos, 2012. Adaptado) 1 sedutor

 

Ao discorrer sobre a casa onde estava morando, o narrador do texto deixa claro que

  1. a casa da rua do Sol e a nova moradia eram lugares repelentes, pois a cidade era um lugar tedioso.
  2. a nova moradia só apresentava problemas, seja pelas baratas noturnas, seja pelos vizinhos feios.
  3. a vontade a rondar seus pensamentos era de poder voltar a morar na casa da rua do Sol em breve.
  4. o novo local devia ser uma construção velha, mas o lugar reunia belezas com a chegada da manhã.
  5. a casa da rua do Sol era mais aconchegante, pois nela não havia baratas a invadir o lugar dia e noite.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A opção escolhida descreve com precisão a visão do narrador: a frase “Devia já ser velha” indica que a casa é antiga e acometida por problemas estruturais, como o soalho carunchoso, os tetos baixos e as baratas.

No entanto, o texto contrapõe esse quadro com imagens de luz e vida: a chegada do sol que “rompia alegremente”, as pombas no parapeito e o aroma das flores atraindo abelhas.

Essa alternância cria uma dualidade perceptiva: a habitação é fisicamente deteriorada, mas o cenário matinal transforma o ambiente, revelando beleza e encanto.

Portanto, a alternativa sintetiza corretamente essa ideia central — velhice da construção coexistindo com as belezas da manhã.

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