Questão FC217822
Raimundo: – Por quê, rapaz? Por quê?
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Leia o texto a seguir para responder à questão a seguir.
Compreendo perfeitamente o pintor Raimundo Nogueira. Ele, a mais bem-humorada e a mais cordial de todas as criaturas que conheço, cortou relações há alguns anos com um sujeito. Fez deste o seu único inimigo, negando-lhe cumprimento. E andou certo, a meu ver. O indivíduo em apreço, naquela época ainda em muito boas relações com o Raimundo, era dono duma churrascaria em Ipanema e dum terreno que desejava vender. O pintor se interessou pelo lote e foi vê-lo; no dia seguinte levou a família e, mal chegou ao lugar, ficou indignado e voltou: o proprietário do lote mandara derrubar uma frondosa mangueira que tinha lá. Na churrascaria, houve o seguinte diálogo:
Raimundo: – E a árvore? E a mangueira?
Dono: – Mandei cortar.
Raimundo: – Por quê, rapaz? Por quê?
Dono: – Acho que os pretendentes podem ver melhor o terreno sem a árvore.
Raimundo: – Ah, é assim, não é? Então, é favor não falar mais comigo.
Foi-se embora; desde então, quando passa defronte da churrascaria, Raimundo vira o rosto. Há entre churrasqueiro e pintor uma árvore morta.
Não sei com quem brigar, a quem virar o rosto. Mas cortaram também a amendoeira que existia debaixo da minha janela, no quintal ao lado. Era uma das maiores e das mais bonitas amendoeiras do Rio. Foi abaixo, para ceder lugar a uma garagem. Ora, seu tronco era longo, portanto, seria a coisa mais simples do mundo fazer um buraco no teto da garagem para o tronco passar, antes de se abrir em galhos e folhas no alto. A ideia não ocorreu ao proprietário do edifício que se constrói e que julgou ainda mais simples pôr a árvore no chão. Trata-se duma alma irmã à do churrasqueiro. Um sujeito que não merece o meu respeito ou a minha confiança. Assim, em meu nome, no do pintor Raimundo Nogueira e de todas as pessoas que gostam de árvores, eu o mando para o diabo que o carregue.
(Paulo Mendes Campos. Árvores. Disponível em: https://cronicabrasileira.
org.br/cronicas/19359/arvores. Acesso em 23.05.2024. Adaptado)
É correto afirmar que o narrador
- tinha boas relações com o vizinho que cortou a amendoeira do quintal da casa localizada ao lado da sua.
- considera que a pessoa que cortou a amendoeira da casa vizinha à sua é como o churrasqueiro que cortou a mangueira.
- sugere que não deveria ser construída uma garagem ou qualquer outro cômodo no local em que estava a amendoeira.
- acredita que o dono da amendoeira cortada soubesse que ela era uma das árvores mais exóticas da cidade.
- aceita que as pessoas também podem ver melhor a própria janela sem a amendoeira que tapava a visão.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
B
Comentário do professor
O narrador estabelece uma comparação moral entre os dois personagens ao relacionar diretamente suas atitudes frente às árvores: ambos ordenaram a derrubada por conveniência.
Essa equivalência fica explícita na frase em que ele chama o proprietário que cortou a amendoeira de «alma irmã» do churrasqueiro; é um julgamento direto, não uma suposição.
Além disso, o tom de indignação e o recurso à imagem de uma «árvore morta» — expressão usada para descrever a relação entre churrasqueiro e pintor — reforçam que, para o narrador, as ações são moralmente comparáveis.
Portanto, a alternativa correta sumariza o juízo do narrador: ele vê ambos como iguais no desrespeito às árvores e na falta de consideração estética e ética.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em