Questão FC217834
Leia a crônica “Liberdade”, de Clarice Lispector, para responder à questão. Houve um diálogo difícil. Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais.a — Mamãe, tire esse cabelo
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Leia a crônica “Liberdade”, de Clarice Lispector, para responder à questão.
Houve um diálogo difícil. Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais.a
— Mamãe, tire esse cabelo da testa.
— É um pouco da franja ainda.
— Mas você fica feia assim.
— Tenho o direito de ser feia.b
— Não tem!
— Tenho!
— Eu disse que não tem!
E assim foi que se formou o clima de brigac. O motivo não era fútil, era sério: uma pessoa, meu filho no caso, estava- me cortando a liberdade. E eu não suportei, nem vindo de filho. Senti vontade de cortar uma franja bem espessa, bem cobrindo a testa toda. Tive vontade de ir para meu quarto, de trancar a porta a chave, e de ser eu mesma, por mais feia que fosse. Não, não “por mais feia que fosse”: eu queria ser feia, isso representava o meu direito total à liberdade. Ao mesmo tempo eu sabia que meu filho tinha os direitos dele: o de não ter uma mãe feia, por exemplo. Era o choque de duas pessoas reivindicando — o que, afinal?d Só Deus sabe, e fiquemos por aqui mesmo.e
(Clarice Lispector. A descoberta do mundo, 1999.)
O gênero textual crônica pode provocar reflexões profundas a partir da apresentação de situações banais do cotidiano. A autora demonstra ter consciência desse aspecto no trecho:
- “Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais”
- “— Tenho o direito de ser feia”.
- “E assim foi que se formou o clima de briga”.
- “Era o choque de duas pessoas reivindicando — o que, afinal?"
- “Só Deus sabe, e fiquemos por aqui mesmo”.
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Gabarito
A
Comentário do professor
"Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais" aparece logo no início e funciona como uma observação metalinguística: a autora explicita que uma ocorrência corriqueira pode conter significado intenso.
O uso do termo aparentemente em contraste com diz demais constrói um paradoxo que chama a atenção do leitor para a profundidade escondida na cena trivial — marca típica da crônica.
Ao formular essa sentença inicial, Clarice enquadra o texto, orientando a interpretação do diálogo subsequente; assim, o leitor passa a buscar camadas de sentido além do literal.
Por isso, essa frase sintetiza a consciência da autora sobre a capacidade da crônica de provocar reflexões profundas a partir do cotidiano, justificando a escolha da alternativa correta.
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