Questão FC217839
… Será que as dores deformam os corações?
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Liberdade adiada
Sentia-se cansada. A barriga, as pernas, a cabeça, o corpo todo era um enorme peso que lhe caía irremediavelmente em cima. Esperava que a qualquer momento o coração lhe perfurasse o peito, lhe rasgasse a blusa.
Como seria o coração?
Teria mesmo aquela forma bonita dos postais coloridos?
… Será que as dores deformam os corações?
Pensou em atirar a lata de água ao chão, esparramar-se no líquido, encharcar-se, fazer-se lama, confundir-se com aqueles caminhos que durante anos e mais anos lhe comiam as solas dos pés, lhe queimavam as veias, lhe roubavam as forças.
Imaginou os filhos que aguardavam e já deviam estar acordados. Os filhos que ela odiava!
Não. Não voltaria para casa.
O barranco olhava-a, boca aberta, num sorriso irresistível, convidando-a para o encontro final.
Conhecia aquele tipo de sorriso e não tinha boas recordações dos tempos que vinham depois. Mas um dia havia de o eternizar. E se fosse agora, no instante que madrugava? A lata e ela, para sempre, juntas no sorriso do barranco.
Gostava de sua lata de carregar água. Tratava bem a lata. Às vezes, em momentos de raiva ou simplesmente indefinidos, areava uma, dez, mil vezes, até que sua lata ficava a luzir e a cólera, ou a indefinição se perdiam no brilho prateado. Com o fundo de madeira que tivera que mandar colocar, ficou mais pesada, mas não eram daí os seus tormentos.
À borda do barranco, com a lata de água à cabeça e a saia batida pelo vento, pensou nos filhos e levou as mãos ao peito.
O que tinha a ver os filhos com o coração? Os filhos… Como ela os amava, Nossenhor!
Apressou-se a ir ao encontro deles. O mais novito devia estar a chamar por ela.
Correu deixando o barranco e o sonho de liberdade para trás.
(Dina Salústio. Mornas eram as noites. Adaptado)
A história narrada apresenta a personagem em uma situação de
- extrema tensão existencial, provocada pelos sofrimentos da vida difícil que levava.
- melancolia e reflexão sobre os filhos, que cresciam e logo seriam independentes.
- irritação e vontade de chorar, decorrente da perda da lata estimada no barranco.
- incontrolável tristeza e desesperança, fruto da saudade dos caminhos já trilhados.
- pleno equilíbrio emocional, com ponderações coerentes sobre a maternidade.
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Gabarito
A
Comentário do professor
A alternativa assinala corretamente extrema tensão existencial: o texto expõe uma mulher esmagada pelo cansaço físico e emocional, com pensamentos oscilando entre o desejo de desaparecer e a obrigação de viver.
Desde a abertura — “a barriga, as pernas, a cabeça... um enorme peso” — há indicação clara de exaustão total, não apenas física, mas moral e existencial.
O barranco, com seu “sorriso irresistível”, funciona como metáfora da fuga radical; a imagem da lata lançada e do encontro final revela intenções autodestrutivas e uma fantasia de liberdade.
A lata, cuidada com zelo, simboliza o fardo cotidiano: objeto de afeto e de trabalho, pesa e lembra a rotina opressora.
O conflito entre o impulso de partir e o retorno aos filhos demonstra o dilema entre desejo de libertação e dever, caracterizando a tensão existencial referida na alternativa.
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