Questão FC217877
– Como vai o maçarico?
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Leia o texto para responder à questão
O maçarico
Naqueles longes tempos, ele era vítima de um cirurgião- -dentista que, de repente do outro lado da sala de café, da outra extremidade do bonde, da calçada oposta, lançava intempestivamente o seu vozeirão:
– Como vai a poesia?
Todas as cabeças que se achavam de permeio1 voltavam- se então para o Poeta. O Poeta, nu, desmascarado, em meio à multidão! Para evitar esses atentados ao pudor, ele afinal descobriu um meio de fazer a pergunta antes que o outro a fizesse. Mal avistava o dentista, e antes que o mesmo erguesse as trombetas da sua voz, que não soavam propriamente como as trombetas da Fama, mas como as cornetas fanhas da Difamação, bradava o alvissareiro Poeta:
– Como vai o maçarico?
As cabeças de permeio voltavam-se então escandalizadas ou irônicas para o cirurgião-dentista. Não porque fosse uma vergonha utilizar esse útil instrumento, mas porque maçarico era mesmo uma palavra muito engraçada, uma palavra que rimava com a dança do sarapico-pico-pico e com surubico. O resultado de tudo isso foi que os papéis se inverteram: o dentista pegou medo do poeta.
(Mario Quintana. Da preguiça como método de trabalho, 2013) 1 permeio: no meio
A conclusão do texto permite concluir corretamente que
- o expediente do Poeta o poupou da vergonha e, desde então, o cirurgião-dentista passou a temê-lo.
- o cirurgião-dentista descobriu o truque do Poeta, ambos fizeram as pazes e se tornaram amigos.
- o Poeta passou a amedrontar o cirurgião-dentista, mesmo sabendo que ele o incomodaria de novo.
- o comportamento do cirurgião-dentista passou a ser criticado pelas pessoas, que gostavam do poeta.
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Gabarito
A
Comentário do professor
O texto mostra que o Poeta se sentia exposto sempre que o cirurgião‑dentista perguntava “Como vai a poesia?”, então passou a antecipar a pergunta com “Como vai o maçarico?”.
Esse expediente desvia a atenção: as cabeças voltam‑se agora para o dentista, não mais para o Poeta, evitando a situação de embaraço descrita.
O narrador afirma explicitamente que, por causa dessa estratégia, “os papéis se inverteram” e o dentista pegou medo do poeta.
Portanto, conclui‑se corretamente que o artifício do Poeta o poupou da vergonha e que, desde então, o cirurgião‑dentista passou a temê‑lo.
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