Questão FC217982
Leia o texto a seguir para responder à questão. Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensa
Interpretação de Textos (Compreensão)
VUNESP · 2024
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a que me cativou logo foi uma... uma... não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo. Mas vá lá; ou se há de dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela, a “linda Marcela”, como lhe chamavam os rapazes do tempo. E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das Astúrias; disse-mo ela mesma, num dia de sinceridade, porque a opinião aceita é que nascera de um letrado de Madri, vítima da invasão francesa, ferido, encarcerado, espingardeado, quando ela tinha apenas doze anos.
Cosas de España. Quem quer que fosse, porém, o pai, letrado ou hortelão, a verdade é que Marcela não possuía a inocência rústica, e mal chegava a entender a moral do código. Era boa moça, lépida, sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e tísico, — uma pérola.
Vi-a pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminárias, logo que constou a declaração da independência, uma festa de primavera, um amanhecer da alma pública. Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sair de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um desgarre, alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras. — Segue-me, disse ela ao pajem. E eu segui-a, tão pajem como o outro, como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe “linda Marcela”, lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto.
(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas)
Ao traçar o retrato de Marcela, o narrador
- recorre a sutilezas para referir-se ao comportamento social da moça.
- exagera em adjetivos para destacar a insociabilidade da moça.
- destaca a beleza da moça e aponta explicitamente a vulgaridade dela.
- deixa implícita a informação acerca da origem controversa da moça.
- induz o leitor a compor uma imagem desvinculada da realidade da época.
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Gabarito
A
Comentário do professor
O enunciado da alternativa está correto porque o narrador descreve Marcela por meio de insinuações e deixas irônicas, em vez de acusações diretas.
Expressões como "não possuía a inocência rústica" e "mal chegava a entender a moral do código" sugerem, com delicadeza crítica, que ela não segue os padrões morais vigentes. Ao dizer que era "amiga de dinheiro e de rapazes" e que, "naquele ano, morria de amores por um certo Xavier", o narrador insinua interesse pessoal e volubilidade afetiva sem explícita condenação.
Além disso, a interrupção cômica — "não sei se diga; este livro é casto" — revela postura irônica e controla o tom, reforçando a caracterização por sutis apontamentos e sugestão, não por descrição frontal.
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