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Questão FC218001

Leia o texto para responder à questão. Cinco horas da tarde Recebi agora um bilhete de mana Rita, que aqui vai colado: 9 de janeiro “Mano, Só agora me lembrou que faz hoje um ano q

Tipologia e Gênero Textual

VUNESP · 2025

Leia o texto para responder à questão.

 

Cinco horas da tarde

 

Recebi agora um bilhete de mana Rita, que aqui vai colado:

 

9 de janeiro

 

“Mano,

 

Só agora me lembrou que faz hoje um ano que você voltou da Europa aposentado. Já é tarde para ir ao cemitério de São João Batista, em visita ao jazigo da família, dar graças pelo seu regresso; irei amanhã de manhã, e peço a você que me espere para ir comigo.

 

Saudades da

 

Velha mana,

 

Rita”.

 

Não vejo necessidade disso, mas respondi que sim.

 

10 de janeiro

 

Fomos ao cemitério. Rita, apesar da alegria do motivo, não pôde reter algumas velhas lágrimas de saudade pelo marido que lá está no jazigo, com meu pai e minha mãe. Ela ainda agora o ama, como no dia em que o perdeu, lá se vão tantos anos. No caixão do defunto mandou guardar um molho dos seus cabelos, então pretos, enquanto os mais deles ficaram a embranquecer cá fora.

 

Não é feio o nosso jazigo; podia ser um pouco mais simples, — a inscrição e uma cruz — mas o que está é bem feito. Achei-o novo demais, isso sim. Rita fá-lo lavar todos os meses, e isto impede que envelheça. Ora, eu creio que um velho túmulo dá melhor impressão do ofício, se tem as negruras do tempo, que tudo consome. O contrário parece sempre da véspera.

 

Rita orou diante dele alguns minutos, enquanto eu circulava os olhos pelas sepulturas próximas. Em quase todas havia a mesma antiga súplica da nossa: “Orai por ele! Orai por ela!” Rita me disse depois, em caminho, que é seu costume atender ao pedido das outras, rezando uma prece por todos os que ali estão. Talvez seja a única. A mana é boa criatura, não menos que alegre.

 

(Machado de Assis, Memorial de Aires)

 

De acordo com Koch e Elias (Ler e escrever: estratégias de produção textual, 2011), em uma situação de comunicação cotidiana, o bilhete como o de mana Rita corresponde a um gênero

  1. multimodal, porém, inserido na obra, passa a ser um gênero primário.
  2. primário, porém, inserido na obra, passa a ser um gênero secundário.
  3. primário e, inserido na obra, mantém-se como um gênero primário.
  4. secundário e, inserido na obra, mantém-se como um gênero secundário.
  5. secundário, porém, inserido na obra, passa a ser um gênero complexo.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Bilhete é, na comunicação cotidiana, um gênero primário: simples, imediato e voltado a uma interação direta entre pessoas, conforme Koch e Elias. Tem função prática e origem no uso social espontâneo.

Quando o autor o insere no romance, esse bilhete é recontextualizado e integrado a uma obra mais complexa. O romance, como gênero secundário, articula e organiza diversos enunciados para fins estéticos e narrativos.

Assim, o bilhete não permanece apenas como documento do cotidiano: sofre ressignificação, passa a cumprir funções de construção de personagem, ambientação e sentido literário. Em suma, um elemento primário, ao compor uma obra literária, assume papel e valor próprios do gênero secundário que o acolhe.

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