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Questão FC218009

O papel mais difícil na família O amor de madrasta e de padrasto é um amor elevado, um amor puramente desinteressado. Eles não têm o benefício da relação automática, do laço do san

Tipologia e Gênero Textual

VUNESP · 2024

O papel mais difícil na família

 

O amor de madrasta e de padrasto é um amor elevado, um amor puramente desinteressado. Eles não têm o benefício da relação automática, do laço do sangue, precisam construir com o enteado uma amizade do zero, em que o conselho depende da doçura e da pontualidade para não agredir e não soar como censura.

 

São corajosos, pois alimentam uma relação desprovida de garantia e estabilidade. Enfrentam os rótulos e o preconceito por ocupar, no imaginário da infância, o lugar natural da mãe ou do pai. Provam o seu valor e adquirem credibilidade pouco a pouco. Só a constância da lealdade é que consolidará a influência.

 

Demonstram, na prática, que não vieram substituir ninguém, mas somar amizades e pontos de vista. Surpreendem com uma ternura desobrigada, uma atenção gratuita, uma dedicação sem a recompensa de abraços e beijos fáceis.

 

Talvez não recebam cartãozinho no Dia das Mães e dos Pais, talvez não sejam chamados para as festas da escola, talvez não estejam representados nos desenhos infantis, talvez tenham que superar a carência e entender que as vitórias são secretas e parciais. Andam no trapézio das emoções, evitando sofrer a desqualificação em qualquer embate: “Você não é meu pai”, “Você não é minha mãe”.

 

Não podem despertar a inveja e a concorrência sendo bons demais, nem a preocupação sendo indiferentes. Não podem dar bronca no momento de raiva nem devem ser tolerantes em excesso na alegria. Armados na paciência, amando a paciência, jamais invadem a privacidade, ficam na porta esperando um convite para entrar na sensibilidade dos pequenos.

 

Não há papel mais difícil dentro de casa. Encarnam o equilíbrio. Medirão as palavras e o tamanho do silêncio. Vão se apaixonar por uma pessoa que possivelmente não será para sempre. Mas o amor é para sempre quando o coração se mostra um duradouro ventre.

 

(Fabrício Carpinejar. Jornal Zero Hora. 24.07.2018. Adaptado)

 

Ao tratar do amor sentido por madrastas e padrastos, o autor da crônica se utiliza de

  1. ironia, no 1º parágrafo, ao defender que possa existir um verdadeiro amor entre padrastos, madrastas e enteados.
  2. idealização, no 2º parágrafo, ao negar que existam padrastos ou madrastas que não amam seus enteados.
  3. repetição, no 4º parágrafo, para se referir a uma série de situações potencialmente frustrantes que podem ocorrer com padrastos e madrastas.
  4. comparação, no 5º parágrafo, ao mostrar a semelhança entre o modo como padrastos e madrastas tratam as crianças em relação ao modo como pais e mães biológicos tratam os filhos.
  5. argumentação, no 6º parágrafo, ao justificar por que padrastos e madrastas não devem se apegar a seus enteados.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Repetição é o recurso apontado: no 4º parágrafo o cronista inicia sucessivos itens com "Talvez não", formando uma anáfora que sublinha cada possibilidade.

Ao repetir "Talvez não", o autor cria ritmo e ênfase, acumulando exemplos — não receber cartão, não ser chamado para festas, não aparecer nos desenhos — e transformando situações isoladas em uma série de frustrações potenciais.

Esse procedimento retórico reforça o caráter incerto e precário do afeto desses personagens, gera empatia no leitor e evidencia que a influência e o reconhecimento dos padrastos e madrastas não são garantidos.

Portanto, a repetição funciona tanto como recurso estilístico quanto como estratégia semântica para referir e dramatizar essas possíveis perdas ou ausências.

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