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Questão FC218098

Há papéis de visão amarga, que eu deveria ter rasgado dez anos atrás; mas a mão caprichosa de minha jovem secretária, que preservou carinhosamente esse bilhete, não será a própria

Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)

VUNESP · 2024

Leia o texto, para responder à questão.

A secretária

 

Procuro um documento de que preciso com urgência. Não o encontro, mas me demoro a decifrar minha própria letra nas notas de um caderno esquecido que os misteriosos movimentos da papelada pelas minhas gavetas fizeram vir à tona.

 

Isso é que dá encanto ao costume de a gente ter tudo desarrumado. Tenho uma secretária que é um gênio nesse sentido. Perdeu, outro dia, cinquenta páginas de uma tradução.

 

Tem um extraordinário senso divinatório, que a leva a mergulhar no fundo do baú do quarto da empregada os papéis mais urgentes; rasga apenas o que é estritamente necessário guardar, mas conserva com rigoroso carinho o recibo da prestação de um aparelho de rádio que comprei em 1941. Isso me fornece algumas emoções líricas inesperadas; quem não se comove de repente quando está procurando um aviso de banco e vê uma conta de hotel de Teresina de quatro anos atrás, com todos os vales das despesas extraordinárias, inclusive uma garrafa de água mineral?

 

Não importa que ela faça sumir, por exemplo, minha carteira de identidade. Afinal, estou cansado de saber que sou eu mesmo; não me venham lembrar essa coisa, que entristece e desanima. Prefiro lembrar esse telefone de Buenos Aires que anotei, com letra nervosa, em um pedaço de maço de cigarros, ou guardar com a maior gravidade esse bilhete que diz: “Estive aqui e não te encontrei. Passo amanhã. S.” Quem é esse “S” ou essa “S” e por que, e onde e quando procurou minha humilde pessoa? Que sei?

 

Há papéis de visão amarga, que eu deveria ter rasgado dez anos atrás; mas a mão caprichosa de minha jovem secretária, que preservou carinhosamente esse bilhete, não será a própria mão da consciência a me apontar esse remorso velho, a me dizer que devo lembrar o quanto posso ser inconsciente e egoísta?

 

Meus arquivos, na sua desordem, não revelam apenas a imaginação desordenada e o capricho estranho da minha secretária. Revelam a desarrumação mais profunda, que não é de meus papéis, é de minha vida.

 

(Rubem Braga, O homem rouco. Adaptado)

 

Assinale a alternativa com o enunciado, baseado em informações do texto, que apresenta redação de acordo com a norma-padrão de concordância e de emprego do pronome relativo.

  1. Há mais de um arquivo meu os quais mostram, em sua desordem, não apenas a imaginação desordenada e o capricho estranho da minha secretária.
  2. São as mãos da consciência que sempre me aponta esse remorso velho, dizendo-me que estou tendo atitudes o mais possível inconsciente e egoísta.
  3. Para minha secretária, não basta as mudanças as quais ela faz nos meus documentos; ela toma decisões que a faz parecer dona da casa.
  4. Tenho uma jovem secretária cuja genialidade em manter tudo desarrumado a fez perder, faz alguns dias, cinquenta páginas de uma tradução.
  5. Estava ali bem à vista os recibos de prestação de um rádio comprado em 1941, achado incrível, onde me levou a sentir emoções líricas inesperadas.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A alternativa D está correta por duas regrinhas sintáticas que aparecem na frase: o emprego do pronome relativo cuja e a forma verbal faz na locução temporal.

Cuja indica posse: liga o substantivo que vem a seguir (genialidade) ao seu antecedente (uma jovem secretária). É o pronome adequado quando queremos expressar “a genialidade dela” sem usar preposição ou artigo antes de cuja.

A expressão temporal "faz alguns dias" é impessoal e fixa: usa-se o verbo faz no singular para indicar tempo decorrido (não se flexiona para o plural), por isso a forma está correta.

Além disso, a perífrase causativa "a fez perder" (fazer + verbo no infinitivo) está bem construída: expressa que a genialidade da secretária foi a causa da perda das cinquenta páginas, com o clítico a referindo-se ao elemento afetado no contexto.

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