Questão FC218124
Leia o texto a seguir para responder à questão. Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensa
Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
VUNESP · 2024
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a que me cativou logo foi uma... uma... não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo. Mas vá lá; ou se há de dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela, a “linda Marcela”, como lhe chamavam os rapazes do tempo. E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das Astúrias; disse-mo ela mesma, num dia de sinceridade, porque a opinião aceita é que nascera de um letrado de Madri, vítima da invasão francesa, ferido, encarcerado, espingardeado, quando ela tinha apenas doze anos.
Cosas de España. Quem quer que fosse, porém, o pai, letrado ou hortelão, a verdade é que Marcela não possuía a inocência rústica, e mal chegava a entender a moral do código. Era boa moça, lépida, sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e tísico, — uma pérola.
Vi-a pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminárias, logo que constou a declaração da independência, uma festa de primavera, um amanhecer da alma pública. Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sair de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um desgarre, alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras. — Segue-me, disse ela ao pajem. E eu segui-a, tão pajem como o outro, como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe “linda Marcela”, lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto.
(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas)
De acordo com Nilce Sant’Anna Martins (2008), as palavras evocativas “nos remetem a uma época, a um lugar, a um meio social ou cultural”. O termo que exemplifica essa explicação está destacado em:
- Quem quer que fosse, porém, o pai, letrado ou hortelão... (2º parágrafo)
- Segue-me, disse ela ao pajem. E eu segui-a, tão pajem como o outro... (3º parágrafo)
- De todas porém a que me cativou logo foi uma... uma... (1º parágrafo)
- ... nascera de um letrado de Madri, vítima da invasão francesa... (1º parágrafo)
- ... uma festa de primavera, um amanhecer da alma pública. (3º parágrafo)
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Gabarito
B
Comentário do professor
pajem — “Segue‑me, disse ela ao pajem. E eu segui‑a, tão pajem como o outro...” — é o termo que exemplifica a noção de palavra evocativa.
No contexto, pajem designa um criado ou acompanhante de cerimônias e viagens associado a épocas históricas e a hierarquias sociais. Trata‑se de um vocábulo que não é neutro temporalmente: carrega referências a práticas e papéis sociais de outro tempo.
Segundo Nilce Sant’Anna Martins, palavras evocativas remetem a uma época, a um lugar ou a um meio social. Aqui, “pajem” situa o enredo num ambiente onde existiam serviçais e cortesias formais, acionando justamente essa dimensão histórica e social.
Portanto, “pajem” é o exemplo adequado por sua carga referencial que aponta para um passado e para estruturas sociais específicas, cumprindo o critério pedido.
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