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Questão FC218192

Leia o texto para responder a questão seguinte: O Sobrado Que pessoa estranha, dona Rosalina. Ela o deixava desconcertado não apenas pela ambivalência de sua conduta mas pelo misté

Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))

VUNESP · 2025

Leia o texto para responder a questão seguinte:

O Sobrado

 

Que pessoa estranha, dona Rosalina. Ela o deixava desconcertado não apenas pela ambivalência de sua conduta mas pelo mistério mesmo do seu ser. Como é que uma pessoa era assim? Ele não entendia, por mais que verrumasse¹ a cabeça não conseguia entender. Ela lhe dava a impressão de duas numa só: quando ele pensava conhecer uma, via que se enganara, era outra que estava falando. Às vezes mais de uma, tão imprevista nos modos, nos jeitos de parecer. Um ajuntamento confuso de Rosalinas numa só Rosalina.

 

Ele passava horas ouvindo dona Rosalina, vendo-lhe os mínimos gestos, o mais leve movimento dos lábios e dos olhos. Via-a de todas as posições, seguia-lhe os passos, e ela nunca parecia ser uma, a mesma pessoa. E depois, no quarto, procurava botar em ordem as ideias, compor com os fiapos que pegava no ar uma só figura de dona Rosalina: uma dona Rosalina impossível de ser. Na rua não pensava em dona Rosalina, se esquecia inteiramente dela. Aprendeu que, por mais que perguntassem, não podia falar nunca naquela mulher tão sozinha. Sua boca devia ser por vontade calada, como era por desígnio de Deus a boca de Quiquina. Se às vezes na rua lhe assaltava a lembrança de dona Rosalina, afastava-a ligeiro, porque, distante, a sua figura ganhava em estranheza e cores sombrias. E ele queria o ar puro da rua, a claridade do dia, onde as horas passavam, a vida era o comum da vida da gente, sem nenhum outro mistério e sobressalto senão o mistério mesmo de existir. O sobrado era o túmulo, as voçorocas², as veredas sombrias.

 

(Autran Dourado. Ópera dos Mortos)

 

¹ refletisse

² escavações no solo ou em rocha decomposta causadas por erosão do lençol de escoamento de águas pluviais

 

O narrador deixa evidente que o personagem (Ele) considerava os momentos fora do sobrado como

  1. um expediente encontrado para poder conversar com as pessoas e falar de seu estranhamento sobre dona Rosalina.
  2. uma fuga para poder colocar as suas ideias em ordem e entender por que estava lá, convivendo com dona Rosalina.
  3. uma forma de se conectar com o mundo e com o ordinário da vida, rompendo com as más impressões vindas daquela residência.
  4. um autoflagelo, porque ele sentia falta das pessoas que habitavam aquele lugar e das energias que de lá emanavam intensamente.
  5. um modo especial de repensar sua vida e analisar qual era o impacto que a presença de dona Rosalina tinha para os seus dias.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

A alternativa está correta porque o texto contrapõe claramente o ambiente do sobrado ao espaço externo: o narrador afirma desejar o ar puro da rua e a claridade do dia, onde “a vida era o comum da vida da gente”.

Fora do sobrado o personagem se esquece de dona Rosalina; a lembrança só lhe assalta por instantes e é prontamente afastada. Esse esquecimento indica que a rua oferece uma conexão com o mundo que o interior não permite.

O sobrado aparece como túmulo, com veredas sombrias, fonte de estranheza e inquietação. Assim, sair equivale a romper com as más impressões e recuperar a normalidade.

Em suma, o espaço externo funciona como refúgio restaurador: traz ordinariedade, claridade e distância emocional do que o perturbava dentro do sobrado.

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