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Questão FC242226

Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes de o sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair de casa de madrugada e pegar o

Morfologia

CESGRANRIO · 2016

Banhos de mar

 

Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.

 

Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes de o sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?

 

De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Nós nos vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.

 

Saímos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco, e minha felicidade começava . Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear, e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.

 

Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe, um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras da minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe, um porco de verdade.”

 

Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.

 

LISPECTOR, C. A Descoberta do Mundo. São Paulo: Rocco, 1999, p. 175. Adaptado.

 

O emprego dos verbos destacados no trecho “‘Eu me  sentava bem na ponta do banco, e minha felicidade  começava.” mostra as lembranças da narradora  sobre um fato que ocorreu com ela repetidas vezes no  passado.

 

Se, respeitando-se o contexto original, a frase mostrasse  um fato que ocorreu com ela uma única vez no passado,  os verbos adequados seriam os que se destacam em:

  1. Eu me sentaria bem na ponta do banco, e minha felicidade  começaria.
  2. Eu me sentei bem na ponta do banco, e minha felicidade  começou.
  3. Se eu me sentasse bem na ponta do banco, minha  felicidade começaria.
  4. Eu me sento bem na ponta do banco para que minha  felicidade comece.
  5. Eu ficava sentada bem na ponta do banco, e minha  felicidade estava começando.
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Gabarito

B

Comentário do professor

"Sentei" e "começou" estão conjugados no pretérito perfeito do indicativo. Esse tempo verbal indica uma ação pontual, concluída e situada em um momento específico do passado.

Ao dizer "Eu me sentei bem na ponta do banco, e minha felicidade começou", o narrador relata dois fatos encadeados e concluídos: primeiro o ato de sentar-se; em seguida, o início da felicidade. Ambos ocorreram uma única vez naquele episódio.

A escolha do pretérito perfeito expressa claramente a ideia de evento único e de sequência temporal — o segundo fato decorre imediatamente do primeiro —, tornando a construção adequada para relatar um acontecimento pontual no passado.

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