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Questão FC242340

Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes de o sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair de casa de madrugada e pegar o

Semântica

CESGRANRIO · 2016

Banhos de mar

 

Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.

 

Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes de o sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?

 

De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Nós nos vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.

 

Saímos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco, e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear, e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.

 

Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe, um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras da minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe, um porco de verdade.”

 

Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.

 

LISPECTOR, C. A Descoberta do Mundo. São Paulo: Rocco, 1999, p. 175. Adaptado.

 

No início do último parágrafo do Texto, a narradora usa a palavra alheia (“Eu não sei da infância alheia”), que poderia ser substituída, sem alterar o sentido original, pela seguinte expressão sinônima:

  1. das ruas
  2. mais carente
  3. já crescida
  4. dos outros
  5. menos atenta
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Gabarito

D

Comentário do professor

Na frase "Eu não sei da infância alheia", o termo alheia é um adjetivo que atribui à palavra infância a ideia de pertença a outra pessoa, isto é, que não é a infância da narradora.

Ao substituir por "dos outros", conserva‑se essa relação de posse: a expressão indica claramente a infância de terceiros, preservando o sentido original da oração.

Do ponto de vista sintático, alheia concorda em gênero com infância e exerce função adjetiva; semanticamente, equivale lexicalmente a "dos outros", tornando a substituição adequada.

Assim, "dos outros" é a opção correta porque mantém tanto o sentido quanto a estrutura da frase original.

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