Questão FC242363
Afinal, somos nós que brincamos o carnaval ou é o carnaval que brinca conosco o tempo todo?
Semântica
CESGRANRIO · 2016
Texto III
Quando eu for bem velhinho — continuação 2
O tempo do carnaval era obrigatório. A despeito de todas as mudanças, ele continua sendo a pausa que dá sentido e razão ao tempo como uma majestade humana. Este imperador sem rivais que diz que passa quando, de fato, quem passa somos nós.
Uma lenda escandinava, traduzida à luz da análise pelo sábio das línguas e costumes euro- -europeus Georges Dumézil, conta a história de um camponês que, sem querer, libertou o diabo de um caixote que ele transportava para um padre na sua carroça. Livre e solto, o diabo — que está sempre fazendo alguma coisa — começou a surrar o seu involuntário libertador, perguntando ansiosamente: “O que devo fazer?” O camponês mandou que ele construísse uma ponte de pedra e, em instantes, ela ficou pronta. E logo o diabo perguntou novamente: “O que devo fazer?” O camponês mandou que o diabo juntasse todos os excrementos de cavalo do reino da Dinamarca e, num instante, a tarefa estava cumprida. Aterrorizado porque ia apanhar novamente, o camponês teve a feliz ideia de mandar que o diabo recuperasse o tempo. Sabendo que o tempo era precioso, o diabo saiu em sua busca, mas não conseguia alcançá-lo. Trouxe dele pedaços, mas não o tempo inteiro como ordenara o camponês. Não tendo observado a tarefa, o diabo voltou para a caixa.
O tempo como potência impossível de ser apanhada foi brilhantemente descrito por Frei Antônio das Chagas num poema escrito nos mil seiscentos e tanto:
Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo dar-lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.
Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!
Pois aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
Chorarão, como eu, o não ter tempo...
Afinal, somos nós que brincamos o carnaval ou é o carnaval que brinca conosco o tempo todo?
DAMATTA, R. O Globo, Rio de Janeiro, 10 fev. 2016. Primeiro Caderno, p. 13. Adaptado.
No poema citado pelo autor no Texto III, emprega-se a palavra conta com vários sentidos.
O contexto no qual ela figura em uma expressão que significa “realizar uma operação aritmética” é o seguinte:
- “Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?”
- “Não quis, sobrando tempo, fazer conta.”
- “Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,”
- “Pois aqueles que, sem conta, gastam tempo”
- “Quando o tempo chegar de prestar conta,”
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Gabarito
B
Comentário do professor
“Não quis, sobrando tempo, fazer conta.”
Nesse verso, a palavra conta aparece no sentido de operação aritmética. A locução fazer conta é idiomática e equivale a calcular ou efetuar um cálculo, ou seja, realizar uma operação numérica ou estimativa.
Gramaticalmente, o sujeito implícito (“eu”) afirma que, embora tivesse tempo disponível (sobrando tempo), não quis dedicar-se a essa atividade concreta de cálculo.
Portanto, a interpretação correta do verso é que o falante recusou-se a calcular ou a “fazer contas”, confirmando o sentido aritmético do vocábulo no contexto.
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