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Questão FC242388

Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?

Semântica

CESGRANRIO · 2015

Texto I

Caso de canário

 

Casara-se havia duas semanas. Por isso, em casa dos sogros, a família resolveu que ele é que daria cabo do canário:

 

— Você compreende. Nenhum de nós teria coragem de sacrificar o pobrezinho, que nos deu tanta alegria. Todos somos muito ligados a ele, seria uma barbaridade. Você é diferente, ainda não teve tempo de afeiçoar-se ao bichinho. Vai ver que nem reparou nele, durante o noivado.

 

— Mas eu também tenho coração, ora essa. Como é que vou matar um pássaro só porque o conheço há menos tempo do que vocês?

 

— Porque não tem cura, o médico já disse. Pensa que não tentamos tudo? É para ele não sofrer mais e não aumentar o nosso sofrimento. Seja bom; vá.

 

O sogro, a sogra apelaram no mesmo tom. Os olhos claros de sua mulher pediram-lhe com doçura:

 

— Vai, meu bem.

 

Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto-vivo. É, esse está mesmo na última lona, e dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso, que viveu para cantar.

 

— Primeiro me tragam um vidro de éter e algodão. Assim ele não sentirá o horror da coisa.

 

Embebeu de éter a bolinha de algodão, tirou o canário para fora com infinita delicadeza, aconchegou-o na palma da mão esquerda e, olhando para outro lado, aplicou-lhe a bolinha no bico. Sempre sem olhar para a vítima, deu-lhe uma torcida rápida e leve, com dois dedos no pescoço.

 

E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga. As pessoas da casa não quiseram aproximar-se do cadáver. Coube à cozinheira recolher a gaiola, para que sua vista não despertasse saudade e remorso em ninguém. Não havendo jardim para sepultar o corpo, depositou-o na lata de lixo.

 

Chegou a hora de jantar, mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada? O sacrificador, esse ficara rodando por aí, e seu desejo seria não voltar para casa nem para dentro de si mesmo.

 

No dia seguinte, pela manhã, a cozinheira foi ajeitar a lata de lixo para o caminhão, e recebeu uma bicada voraz no dedo.

 

— Ui!

 

Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?

 

— Ele estava precisando mesmo era de éter — concluiu o estrangulador, que se sentiu ressuscitar, por sua vez.

 

ANDRADE, C. D. Cadeira de Balanço. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.

 

No Texto I, a referência à casa da família como uma “casa enlutada” significa que as pessoas que ali viviam

  1. estavam muito tristes.
  2. discordavam entre si.
  3. gostavam de luta.
  4. foram a um enterro.
  5. usavam roupas pretas.
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Gabarito

A

Comentário do professor

O termo “casa enlutada” deriva de luto, que indica um estado de tristeza profunda causado pela perda ou morte. No contexto do texto, essa expressão descreve o clima emocional dos moradores após o sacrifício do canário.

A narrativa apresenta sinais claros desse pesar: a família apelou para que alguém matasse o pássaro por misericórdia, os olhos da mulher suplicaram, o sacrificador saiu “pequenino por dentro, angustiado” e ninguém teve apetite ao jantar. Esses elementos evidenciam o sentimento coletivo de pesar.

Portanto, interpretar “casa enlutada” como estavam muito tristes é fiel ao sentido lexical de luto e ao quadro afetivo descrito pelo autor.

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