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Questão FC242401

O suor e a lágrima Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio.

Semântica

CESGRANRIO · 2016

O suor e a lágrima

 

Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.

 

Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante.

 

O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.

 

Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.

 

Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.

 

E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.

 

Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.

 

Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima.

 

CONY, C. H. In: NESTROVSKI, A. (Org.). Figuras do Brasil – 80

autores em 80 anos de Folha. São Paulo: Publifolha. 2001. p. 319.

 

Ao utilizar, como elemento coesivo, a expressão valente filho do povo, para se referir ao engraxate, o autor assume no texto uma postura

  1. incoerente
  2. dispensável
  3. parcial
  4. objetiva
  5. inconsequente
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Ao chamar o engraxate de "valente filho do povo", o autor adota uma postura parcial. A expressão não é neutra: valente confere uma qualificação positiva e afetiva; filho do povo sinaliza a origem social do personagem, colocando-o em uma perspectiva de simpatia.

Essa escolha lexical revela uma visão subjetiva e envolvida do narrador, que avalia e classifica o engraxate segundo um juízo de valor, não apenas descreve fatos.

O próprio texto reforça esse vínculo emotivo — o narrador sente culpa, admiração e vergonha diante do trabalho suado do rapaz — o que demonstra envolvimento e confirma a parcialidade da postura.

Portanto, a expressão sintetiza uma atitude pessoal e valorativa do autor, razão pela qual a opção parcial é adequada.

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