Questão FC242455
No fragmento do texto “Escriturei-me; deram-me um papel que... mas para que o estou a fatigar com isso?
Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)
CESGRANRIO · 2018
Memórias Póstumas de Brás Cubas
Lobo Neves, a princípio, metia-me grandes sustos. Pura ilusão! Como adorasse a mulher, não se vexava de mo dizer muitas vezes; achava que Virgília era a perfeição mesma, um conjunto de qualidades sólidas e finas, amorável, elegante, austera, um modelo. E a confiança não parava aí. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia confessou-me que trazia uma triste carcoma na existência; faltava -lhe a glória pública. Animei-o; disse-lhe muitas coisas bonitas, que ele ouviu com aquela unção religiosa de um desejo que não quer acabar de morrer; então compreendi que a ambição dele andava cansada de bater as asas, sem poder abrir o voo. Dias depois disse-me todos os seus tédios e desfalecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas; contou-me que a vida política era um tecido de invejas, despeitos, intrigas, perfídias, interesses, vaidades. Evidentemente havia aí uma crise de melancolia; tratei de combatê-la.
— Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não pode imaginar o que tenho passado. Entrei na política por gosto, por família, por ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem à vida pública; faltou-me só o interesse de outra natureza. Vira o teatro pelo lado da plateia; e, palavra, que era bonito! Soberbo cenário, vida, movimento e graça na representação. Escriturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a fatigar com isto? Deixe-me ficar com as minhas amofinações. Creia que tenho passado horas e dias... Não há constância de sentimentos, não há
gratidão, não há nada... nada.... nada...
Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo não ouvir coisa nenhuma, a não ser o eco de seus próprios pensamentos. Após alguns instantes, ergueu-se e estendeu-me a mão: — O senhor há de rir-se de mim, disse ele; mas desculpe aquele desabafo; tinha um negócio, que me mordia o espírito. E ria, de um jeito sombrio e triste; depois pediu- me que não referisse a ninguém o que se passara entre nós; ponderei-lhe que a rigor não se passara nada. Entraram dois deputados e um chefe político da paróquia. Lobo Neves recebeu-os com alegria, a princípio um tanto postiça, mas logo depois natural. No fim de meia hora, ninguém diria que ele não era o mais afortunado dos homens; conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.
ASSIS, M. de. Memórias Póstumas de Brás Cubas
; IN: CHIARA, A. C. et alli (Orgs.). Machado de Assis para jovens leitores. Rio de Janeiro: Eduerj, 2008.
Os sinais de pontuação contribuem para a construção dos sentidos dos textos.
No fragmento do texto “Escriturei-me; deram-me um papel que... mas para que o estou a fatigar com isso?
Deixe-me ficar com as minhas amofinações”, as reticências são usadas para demarcar a
- interrupção de uma ideia.
- insinuação de uma ameaça.
- hesitação comum na oralidade.
- continuidade de uma ação ou fato.
- omissão proposital de algo que se devia dizer.
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Gabarito
A
Comentário do professor
As reticências no trecho marcam a interrupção de uma ideia: o narrador inicia a explicação — “Escriturei-me; deram-me um papel que...” — e interrompe abruptamente esse enunciado, devolvendo ao leitor a sensação de que o pensamento ficou inacabado.
Esse corte é visível pelo seguimento imediato, em que a fala se redireciona para “mas para que o estou a fatigar com isso?” — ou seja, o personagem desiste de desenvolver o detalhe e opta por encerrar o assunto. As reticências, portanto, não apenas suprimem palavras, mas sinalizam a suspensão do raciocínio.
O efeito é psicológico e discursivo: cria economia verbal, sugere evasão ou desinteresse e aproxima a escrita da espontaneidade oral, contribuindo para a caracterização do enunciador.
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