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Questão FC242487

— Ué... mas você não o detestava? Como é que arranjou essa sopa pra ele?

Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)

CESGRANRIO · 2015

Texto II

Prova falsa

 

Quem teve a ideia foi o padrinho da caçula — ele me conta. Trouxe o cachorro de presente e logo a família inteira se apaixonou pelo bicho. Ele até que não é contra isso de se ter um animalzinho em casa, desde que seja obediente e com um mínimo de educação.

 

— Mas o cachorro era um chato — desabafou. Desses cachorrinhos de raça, cheios de nhém-nhém-nhém, que comem comidinha especial, precisam de muitos cuidados, enfim, um chato de galocha. E, como se isto não bastasse, implicava com o dono da casa.

 

— Vivia de rabo abanando para todo mundo, mas, quando eu entrava em casa, vinha logo com aquele latido fininho e antipático de cachorro de francesa.

 

Ainda por cima era puxa-saco. Lembrava certos políticos da oposição, que espinafram o ministro, mas quando estão com o ministro ficam mais por baixo que tapete de porão. Quando cruzavam num corredor ou qualquer outra dependência da casa, o desgraçado rosnava ameaçador, mas quando a patroa estava perto abanava o rabinho, fingindo-se seu amigo.

 

— Quando eu reclamava, dizendo que o cachorro era um cínico, minha mulher brigava comigo, dizendo que nunca houve cachorro fingido e eu é que implicava com o “pobrezinho”.

 

Num rápido balanço poderia assinalar: o cachorro comeu oito meias suas, roeu a manga de um paletó de casimira inglesa, rasgara diversos livros, não podia ver um pé de sapato que arrastava para locais incríveis. A vida lá em sua casa estava se tornando insuportável. Estava vendo a hora em que se desquitava por causa daquele bicho cretino. Tentou mandá-lo embora umas vinte vezes e era uma choradeira das crianças e uma espinafração da mulher.

 

— Você é um desalmado — disse ela, uma vez. Venceu a guerra fria com o cachorro graças à má educação do adversário. O cãozinho começou a fazer pipi onde não devia. Várias vezes exemplado, prosseguiu no feio vício. Fez diversas vezes no tapete da sala. Fez duas na boneca da filha maior. Quatro ou cinco vezes fez nos brinquedos da caçula. E tudo culminou com o pipi que fez em cima do vestido novo de sua mulher.

 

— Aí mandaram o cachorro embora? — perguntei ao meu amigo.

 

— Mandaram. Mas eu fiz questão de dá-lo de presente a um sujeito que adora cachorros. Ele está levando um vidão em sua nova residência.

 

— Ué... mas você não o detestava? Como é que arranjou essa sopa pra ele?

 

— Problema da consciência — explicou: — O pipi não era dele.

 

E suspirou cheio de remorso.

 

PONTE PRETA, Stanislaw. Prova falsa. In: Para gostar de ler. v. 13. p. 51-52. São Paulo: Ática, 1993. Adaptado.

 

O autor usou as aspas em “pobrezinho” para

  1. realçar um apelido engraçado.
  2. indicar que está sendo irônico.
  3. destacar o emprego de uma gíria.
  4. marcar o uso de palavra estrangeira.
  5. relatar o discurso de outro de forma direta.
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Gabarito

B

Comentário do professor

A presença das aspas em “pobrezinho” indica que a palavra foi empregada fora do seu sentido natural, com intenção contrária ao que aparenta.

No contexto, a esposa defende o cão chamando-o de “pobrezinho”, mas o narrador — que critica o comportamento do animal — reproduz esse termo entre aspas para marcar discordância: não se trata de compaixão, mas de desprezo velado.

Assim, as aspas sinalizam uso irônico, isto é, uma palavra usada com sentido oposto ao literal, conferindo um tom sarcástico ao enunciado.

Exemplo paralelo: dizer “Que maravilha!” ao se referir a algo claramente desagradável expressa ironia da mesma forma.

Portanto, a função das aspas aqui é indicar que o vocábulo foi empregado de modo irônico.

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