Questão FC242621
Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes de o sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair de casa de madrugada e pegar o
Concordância (Verbal e Nominal)
CESGRANRIO · 2016
Banhos de mar
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.
Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes de o sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Nós nos vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saímos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco, e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear, e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe, um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras da minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe, um porco de verdade.”
Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.
LISPECTOR, C. A Descoberta do Mundo. São Paulo: Rocco, 1999, p. 175. Adaptado.
Considere-se esta passagem do Texto: “Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria.”
Há um desvio de concordância na seguinte reescritura desse trecho do Texto:
- Mas essas viagens diárias enchiam de alegria aquela criança.
- Como me tornava uma criança completa de alegria essa viagem diária!
- Mas essas viagens diárias me tornavam uma criança completa de alegria.
- Essa viagem diária me tornava uma criança, completo de alegria.
- Eu me tornava uma criança completa de alegria por causa dessa viagem diária.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Na frase apresentada, a construção evidencia corretamente a concordância entre sujeito e verbo: “Essa viagem diária” (fem. sing.) exige “me tornava” (3.ª pessoa do singular), portanto essa parte está correta.
O desvio aparece na concordância nominal. O sintagma “uma criança” é feminino singular; o termo “completo”, que caracteriza essa criança, deveria concordar em gênero e ficar no feminino: “completa”.
Logo, o problema é o uso de “completo” no masculino, em desacordo com o substantivo feminino a que se refere. A forma correta seria: “Essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria.”
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