Questão FC242623
O suor e a lágrima Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio.
Concordância (Verbal e Nominal)
CESGRANRIO · 2016
O suor e a lágrima
Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.
Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante.
O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.
Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.
Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.
E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.
Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.
Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima.
CONY, C. H. In: NESTROVSKI, A. (Org.). Figuras do Brasil – 80
autores em 80 anos de Folha. São Paulo: Publifolha. 2001. p. 319.
A concordância verbal está plenamente adequada à norma-padrão no seguinte período:
- Fazem 15 anos que o escritor encontrou o engraxate.
- Deve haver muitos engraxates pelos aeroportos do Rio.
- Deseja melhores oportunidades de trabalho os brasileiros.
- Muitos de nós quer viver sob condições melhores.
- Cada um de nós devem ter consciência do seu valor.
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Gabarito
B
Comentário do professor
O verbo haver, no sentido de existir, é impessoal: não tem sujeito e fica sempre na terceira pessoa do singular. Nessa locução, o verbo principal determina a flexão da perífrase, por isso deve aparece também no singular (deve haver).
Em "Deve haver muitos engraxates pelos aeroportos do Rio", muitos engraxates não atua como sujeito, mas como complemento/objeto da expressão existencial. Logo, a concordância não se faz com esse termo plural.
Portanto, a construção está conforme a norma-padrão: mantém-se a forma impessoal do verbo haver (3.ª pessoa do singular) e o plural seguinte permanece como elemento existencial, não exigindo concordância verbal com o número dos engraxates.
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